Arquivo do mês: setembro 2009

Claire de Lune II

Ela dorme em minha cama o sono que sonhei pra ela

Veio chorar em meus lençóis as lágrimas que não conteve

 

Não consigo parar de lembrar canções e entender tudo como uma valsa na chuva.

E eu já disse que te amo e que você não tem nada a ver com isso

 

Estar apaixonado hoje

É decididamente diferente do que sempre foi

 

Não há tempestade, não há a incandescência da paixão adolescente

Há um carinho terno e cúmplice

Não é frio é só…

…prudente

Para não dizer calejado

 

O jeito calmo e experiente que em nossas loucuras tanto recusamos

É apenas uma maneira serena de auto-preservação

Que talvez nada tenha a ver com falta de romantismo

Com perder a magia

 

O conflito e o sofrimento apenas estendem-se

Quando se quer arte a todo custo

Com todo o sangue

Com mais volume que de fato comportamos

 

Adeus Talia

Adeus Melpomene

Adeus Euterpe

 

É sofrível também

Notar que crescer

É perder o talento

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Preferências

Patético, devia ter me calado e ido embora

Mas e se sempre o tivesse feito?

 

Certamente não seria o mesmo

Não teria vivido o gosto

Ou sentido o frio

 

Vou passar dias calado

Devia ter dito

 

Foi só uma pergunta, não dói

Não mata…

 

Será?

 

Melhor dizer

Sempre melhor dizer que se calar

É assim que é desde então

 

Vem comigo?


Giz na Calçada

Assombrado pela bruxa má do lado esquerdo da cama

Caído de amores pela ninfa avatar do caos

Em luxúria com a princesa do castelo desencantado

Perseguido pela louca do Leme

 

Quem me dera fossem moinhos

As pessoas que me vêm neste caminho

 

O caos se personifica

Numa garotinha de olhos psicoticamente encantadores

Um metro e meio

E vestidinho de boneca

 

Trazendo melodias aciculadas

E papéis manchados de sangue

 

Não pude deixar de notar

A semelhança na ressaca deste olhar

 

Medo

Enorme

 

De fazer tudo isso desmanchar


Canudo

Há um ano tentando desapegar

Há três meses fazendo sofrer demais

Há um DDD de quebrar mais promessas

Há dez centímetros de me complicar para todo o sempre

 

Há quatro acordes de resolver a última meia hora

Há três anos imerso na própria frustração

Há milhares de cifras do perfeito e da salvação

Há uma sinapse de achar a frase da canção

 

Sigo

A cento e oitenta milhões de pensamentos por hora

Com meu corpo inerte, envelhecendo, no mesmo lugar

Mofado, distante, com um medo confortável que me lança aos vícios

Com vícios desesperados que me metem medo

 

Ando

Com os olhos da nuca abertos

Mágico presente da paranóia

Se ao menos estes enxergassem além da culpa

Olharia para o passado com menos peso


Seu Monstro

A criança dorme

 

O sono justo e profundo da inocência

Com as mãos atochadas aos pêlos do seu monstro

Este muda os canais da TV e sai vez em quando

 

Do próprio quarto

 

Para engolir as almas sofredoras que restaram do almoço

Gozar alguns minutos mais de tormentos excruciantes

Ou quem sabe tragar algum prazer alheio que passara batido

 

Aos mesmos olhos

 

Não há mais moral em tanto documento rasgado

Não há ética sobrevivente a milênios em guerra

Não há amanhã que seja menos divertido


Monólogo da Comédia Ostensiva

Todos vocês, ao redor do picadeiro

Cada qual com sua própria frustração estampada em cada semblante

Esperavam sapatos grandes

Calças largas de bolas verdes

Um suspensório, nariz vermelho talvez?

 

Trago-lhes em meu nariz corrente e assado

Toda a risada que o escárnio pode promover

 

Sei não haver nada superficialmente engraçado

Em olheiras profundas nos olhos

Marcas amarelas nas mãos de cigarro

 

Com fé, notarão que a comédia na decadência do outro

Traz entretenimento de qualidade todos os dias

Ou chorou por quem perdeu

Em todas as vezes que venceu?

 

Cada qual em seu palácio

Fabricando, construindo

Inventando, contribuindo

Mal dizendo, investindo

Em palhaços como eu

 

Isso mesmo, só tenho a agradecer!

Seus atos impensados

Derramamento desvetorizado de angústia insensata

Chorume emocional raso normopata

Ruído odontosádico original social

Criaram todas estas quinas

Em minha vida

 

Meus dias in vitro

Diversão garantida

Quem não quer rir da desordem desesperadora que é minha vida?

 

Mas cá estou às risadas

Com meus fósforos no bolso

 

Na tragicomédia da dança deste palhaço

Não há casamento que caiba melhor em minha frustração

 

Que o de alguns metros quadrados de lona

Com vários litros de gasolina


Sujeito Oculto da Relação Subordinada

Completo não, mas de certa maneira já encaixado

Para sempre? Talvez, no dia em que o tempo não tiver mais importância

Amor?

Demais

Sempre

 

Você sim, e mais um exército para dividir o peso

De mim talvez, mas vai com calma com o que for tirar

Vontade?

Sempre

Muita

 

Depois quem sabe, há sempre um porém que eu não soube julgar

Por mim talvez, mas não devo demonstrar nada grandioso

Sexo?

Aceito

Obrigado


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