Arquivo do mês: outubro 2009

Desarranjo

No vaso já houveram flores
Na cozinha ficavam os temperos
E a vista era linda da janela da sala

Cronos nunca gostou da beleza que Zeus compartilhava com Dionísio
Nunca foi fã dos arranjos de Orfeu ou das tolices de Narciso
Tinha uma queda pela ignorância de Pandora mas nunca conheceu o amor

Amaldiçoou os homens com a apatia perante o tempo e seu desenrolar implacável

No retrato em preto e branco
Não se vê as cores das flores
Não se sente o sabor dos temperos
Ou a brisa da janela

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Teus Botões

Porque nós dois sabemos muito bem
Que as pessoas não mudam
E o amor é volátil

E você não vai mudar ninguém
Muito menos sofrendo
Muito menos chorando

Criança me escuta em estéreo
Pois apenas uma vez
Poderei te ser sincero

Menina se prenda à estas noites
E aprenda a ser mais leve
Você não precisa salvar ninguém

Pois minha tristeza há muito não é crise
É a conclusão destes muitos erros
Me anestesio com a dor que melhor me servir

Nos meus dias não há tuas cores
Mas me serve abrir seus botões
Isso é tudo o que deste mundo pode levar

PONTE (pt. 1 Com acordes completos)

Porque nós dois sabemos muito bem
Que as pessoas não mudam
E o amor é volátil

(REFRÃO)

(HARMONIA DA 1 PARTE)
Nos meus dias não há tuas cores
Mas me serve abrir seus botões
Isso é tudo o que deste mundo pode levar


Polifonia Distorciva

Rio intenso
Gargalho ferido
Engasgo ao seco abandono matutino

“Onde estão?” é imediatamente defendido com um: “Quem se importa?”

A coca-cola está na geladeira para mais um café da manhã
Depois de dormir à quântica púbere hollywoodiana
O que me fez pensar menos e temer mais
Minhas curtas horas de sono

A mensagem falava algo sobre saque
Ou amizade
Vai saber…

De um modo maduro
Ou senil
Me canso da batalha contra mim mesmo
De toda a montanha-russa

Do caminho estranho que leva o desamor até a paixonite

Da doença egoísta que é se desgostar

Do íntimo dos meus dizeres

Estou exaurido
Pela covardia perante o suicídio
E o imenso sentimento híbrido
Filho da preguiça e do tédio
Que assola o caminho desta vida

A impressão tatuada de que minha beleza pró-ativa e juvenil morreu em combate

A certeza de que a sorte foi vencida pelas escolhas erradas

Cuida da última faísca
Deste mini-amor aí dentro do teu peito
Menino

Por favor…


Estranhos no Paraíso

Entre a fome e a loucura
Daqueles olhinhos afogados nos braços

Debruçados no balcão

Pedindo
Escondendo
Flertando

É bonito o jeito que o baile se move
Apesar das danças não casarem
Das roupas não fazerem sentido
Dos pares não combinarem

Uma harmonia pode ser atonal no final das contas

Sinto pelo futuro
Já chorando o presente
Em meio a minha dramaticidade alcoólica
Aceito o passado

À grunhidos e remeximentos de noites mal-dormidas

Aceito o indivíduo que não é mais à dois
Aceito sua felicidade
e o tanto que ela de fato não esbarra na minha
Te aceito assim…

…do jeito que agora é

Fazer o que


Alma ao mar

Repudio este sentimento por não saber se é verdadeiro ou mero excesso em minhas perturbações

Não abandono nem transformo nada
Estancado num medo primordial tento me preservar

“Do quê? De onde? De quem?” – a alma pergunta
Mas o corpo se cala e se tranca

Vômito lírico
ou estou doente ou deveras apaixonado

“É propício seduzir, mas tendo absoluta consciência do que se faz,
a razão verdadeira do comportamento e o tempo que esta circunstância deverá durar.
É que o processo sedutor encanta quem seduz também.” – Diz o astrólogo ao libriano

Sabendo disso não ajo por falta de tais certezas
Logo quem, logo eu
Que nunca antes na vida precisei de razão

Por outro lado sei que o alinhamento de planetas
Tenta exorcizar a subjetividade da minha vida
E me lançar ao mundo prático de minhas tarefas
Mas não consigo pesar, medir, partir minha mente em duas partes…

…me rendo à subjetividade de sua sopa de letrinhas então
À subjetividade de minha verborragia tempestuosa
À subjetividade de meus íntimos, ínfimos, infindáveis e infinitos impulsos

Naturais
Instintivos
Artificiais
Todos eles

E morro na praia

Só e louco


Do choque entre os mundos

O verdadeiro amor

É arestado
pois fazemos questão de arrendondar nossas quinas nos outros
É caloroso
pois não há cobertas que simulem o calor daquele corpo
É passional
pois é paixão num acelerador de partículas do tamanho do universo
É injusto
afinal não aceitamos o outro se levar para caminhos que conhecemos
E altruísta
pois não cuidamos do outro por nosso egoísmo em nos sentirmos pertencentes
e sim pela possibilidade de não ter medo de nada que nos faça mal
contanto que o outro esteja feliz

É sempre bom saber que um dia vivemos um verdadeiro amor
Isso também é saber definitivamente
Que o pior já passou…


Rosé

Não posso mais tomar uísque
Acho que nunca pude

Feliz aniversário

Acordo com mais dinheiro no bolso do que saí ontem
O perfume dela não desgruda do meu ombro
Enche meus olhos de lágrimas e minha boca de sede

Não posso mais sair de casa
Nunca mais
Não sei me comportar
Não posso me encaixar

E ao mesmo tempo
Sabendo que nada sei
Estanco

Homogeneizado à multidão

De meus coleguinhas mais parceiros deste satanismo savassiano

No alto de todo meu desamor
Nos autos das pendências com a noite
Queria te dar mais atenção
E no fundo
Bem no fundo
Perto do meu petróleo interno

Sei que não posso cuidar de ninguém enquanto não aprender a cuidar de mim

As centenas de reais que custam minha carência
Nas chamadas

Recebidas
Realizadas
Não atendidas
Incompletas

Vejo com clarividência de detalhes póstumos
Todo o chorume dos meus erros

Cheira bem
Teu perfume

Mas a imagem empacada em minhas sinapses
Jura horrores traiçoeiros belos

Senti sua falta (agora dirigido para outro leitor)
Ri por dentro de saber de tuas intimidades

Ao mesmo tempo em que a faca entrava e o sangue saía
Minha calça lubrificava a ilusão

OK

Perdemos completamente a pressão na cabine
E o mar se aproxima do bico do avião

Mas tanto faz

O tempo não vai mudar ninguém!


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