Arquivo do mês: dezembro 2009

Porcelana

Não é nada não, após tanto tempo posso dizer que o corte virou cicatriz e não mais sangra. Dói quando me lembro, mas não sangra mais não.
É só engraçado a quantidade de canções que tenho aqui que me retornam em nostalgia inconsequente.
Na fase dos girassóis ou sei lá…
Minha epopéia em direção a sublimação mais pareceu um filme dos Cohen; cagada atrás de cagada, com um senso de humor extremamente negro e ácido que faz com que meu demônio interno ache um lugar quentinho para dormir e parar de me azucrinar. Uma bela e torta tragicomédia.
Mas enfim, acho que no final era mesmo pequeno e baixo, bem como eu sempre evitei e ao mesmo tempo sempre fui. Honorável idiota que sou.
Mas as coisas nem sempre foram assim, houve aquela vez em que… Ahn! Deixa pra lá… Talvez nunca tenha feito sentido.
Como ela me disse uma vez, ou várias. Disse bem como você; com os olhos arregalados e o dedo na minha cara: “Talvez você apenas tenha inventado isso.”
Foi uma bela montanha-russa se olhármos de fora, com todo o conforto e serenidade do amadurescimento (o que de fato nunca foi nosso forte). Um belo e intenso passeio onde nos seguramos por vários loopings e espirais. No fim, como em toda montanha-russa, o vazio no estômago e uma estranha sensação de satisfação.
Na retórica verborrágica vaga destes pensamentos alcoólicos, nunca pensei na diferença entre me divertir, lutar pelo que acredito e causar destruição. Ainda hoje desprezo tal distância crítica, o que me faz muito mal e causa males talvez piores. Continuo não ligando.
Algo que aprendi nesses anos todos, não ligar. O que era um treinamento se tornou uma característica, felizmente ou infelizmente, não sei…
…a apatia é um lugar sem decoração.

E lá vem outro ano novo

E é claro que continuo deprimido

Mais uma vez vou enfiar a cara no mar, pedir para algum ser mitológico me transformar em outra pessoa. Mais uma vez nenhuma dessas fantasias de criança vai me livrar do adulto arestado que me criei.
O mundo vai continuar girando, me tirando e colocando; pessoas, esperanças, lugares, promessas, temores, lembranças…
O mesmo vai acontecer com você e com todos os que nos cercam, que também serão outros, que também sofrerão o mesmo processo. Viver é definitivamente esse círculo aleatório e ao mesmo tempo vicioso do sentir. Os discos de dez anos atrás farão vinte, trinta, cinquenta…
Me desarmo, exausto, sem provar ponto algum
É onde me encontro
Acho até que é o que sou.

Galapogos

(The Smashing Pumpkins)

Ain’t it funny how we pretend we’re still a child
Softly stolen under our blanket skies
And rescue me from me, and all that I believe
I won’t deny the pain
I won’t deny the change
And should I fall from grace here with you
Will you leave me too?

Carve out your heart for keeps in an old oak tree
And hold me for goodbyes-and whispered lullabyes
And tell me I am still
The man I’m supposed to be
I won’t deny the pain
I won’t deny the change
And should I fall from grace here with you
Will you leave me too?

Too late to turn back now, I’m running out of sound
And I’m changing, changing
And if we died right now, this fool you loved somehow
Is here with you
I won’t deny the pain
I won’t deny the change
And should I fall from grace here with you
Would you leave me too?

Já deveria saber a resposta…

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Limpando as Armas

O tempo nublado e úmido
Me transporta sensorialmente
Todas as manhãs
Para outro lugar

A impressão não nítida
De que a luz fere mais
Por ser refletida
Na infinidade de tons de cinza

Posso escutar o pulso do ano diminuir
O trânsito hemorrágico da cidade aumentar
No cheiro pútrido de dinheiro que o natal traz
A euforia dessas formigas no verão

A noção clara e aterradora
Que mesmo entre gargalhadas sarcásticas e sinceras
Tudo o que aprendi neste ano
Foi ódio e tristeza

Nos esquivos tropeços das paixões
Nas raspas dos restos que nunca me sobram
Na batalha diária impulsionada pelo consumo
Na força sobre-humana ao sobreviver a madrugada

No ódio tanto combustível
Sem a menor direção
Na tristeza tanta filosofia
Sem a menor conclusão

Ah, maldade essa que não consegue me caber!


Vendetta

Reais 150
Cartela 234
Interação top 5
Pista 100%

All Star 43
Sorriso .40
Aço cirúrgico 12mm
Jack Daniel´s Old No 7

Picareta´s score…
…não tem preço!


Sobre a Casca e o Sangue Negro

“Wax me
Mould me
Heat the pins and stab them in
You have turned me into this
Just wish that it was bullet proof ”

-Bulletproof I wish I was (Radiohead)


Translando

Fui perigoso quando o dia amanheceu
E derrotado ao encontrar meu colchão
Fui redimido ao dormir profundo
E condenado a acordar dolorido

Lento ao arrumar todo o meu ser
Só ao varrer meus pensamentos
E altivo ao empunhar minha lança ao sol do dia
Finalmente, humilde ao lidar com minhas obrigações

Estive ingênuo ao bater do cartão
E faminto aos primeiros goles do happy hour
Poderoso a já baixa lua externa
E agressivo ao formar-nos matilha

Fui perigoso quando o dia amanheceu…


Dias de par em par

Gastei as últimas quarenta e oito horas
Tentando afogar um sorriso
E sempre que me via confuso e entorpecido o suficiente para esquecê-lo
Lá vinha ele de novo

Respirava junto as paredes da casa
Brilhava aos estalos da cama
Refletia ao som do ventilador
E mesmo adormecido, para não dizer desacordado
Aparecia em minha inconsciência
Junto aos raios catódicos que me penetravam as pálpebras

Procurei então outros diálogos
Outros colos que acalmassem a taquicardia ansiosa
E foi em vão como sempre é

Quando subiu as escadas e deixou a festa
Levou junto qualquer possibilidade que eu viria a ter
De ser salvo de mim mesmo
Quando ao recusar ser tua companhia naquela noite
achei o estar fazendo propriamente

Estou sempre errado
Ao te acompanhar
E ao te recusar


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