Arquivo do mês: janeiro 2010

Manejar sem cuidado

Não perco o controle sobre minha fatia do bolo
Creio pouco que tais curvas sejam suficientes
Para eu me perder
Para eu me entreter
Para você não me soltar

Dispenso pena
Após ter jogado fora a piedade
A caridade
A compaixão
O humanismo

Ou seja lá que tipo de nome eufemista possa dar
A este teu sentimento raso de estimação a criatura que sou
Que você insiste por inexperiência
embriagada pelo desafio da nova companhia afetiva
em chamar de amor 

O reino encantado se converte na Roma de Nero
Quando os ares da luxúria real
Rompem a fantasia infantil

Não tenho nada a perder
Ou mesmo a aprender
Com você

E a verdade
É que o brinquedo e a criança
Desde o início
Tem seus papéis trocados

Mas você não percebe
O que não preciso te contar
Você não desconfia
Que teu carinho e o teu colo
Não são nada mais que alimento
Ao pequeno parasita sentimental

Que faz questão ainda

Mesmo errada

De achar que ama

Anúncios

Cor-de-moça

Acordei com o sabor roubado
De um presente da madrugada
O tato ilusório remanescente
De alguma curva desejada

Dos olhos incapazes de enganar
Aprendi ávido, a inconstância
A mais bela e ingênua loucura
Dos passos dessa tua dança

O curioso rasgo deste sonho
Este defeito de fabricação
Destaca a imparidade do brilho
De tal música sem pulso

Enquanto a covardia interna
Faz aniversários encavalados
Não deixo de notar algo sublime
Na novidade destas cores fugazes


Divinorum

Acho que tenho um pedaço teu para te entregar
Não é muito, mas é de coração
Tudo o que nossos corações construíram seria incapaz de calcular
Mas cá está
Teu pedaço à se entregar

Nada disso vem ao caso
Meu teto novo anuncia vários finais
Principalmente o meu próprio
Interessante visão
Das flores que choram ópio

Já que Lotus e Loto nada tem em comum
Assim como ética e éter
Seguimos Afonso acima
Nas noites de tristes meninas
Na bruma sálvia salva alucínia


Redenção

As palavras são de todo mundo
Mas estas de ponta brilhante
Estas de corpo arrogante

E como elas se abrem em rosetas
Se estendem pelo arco
E disparam contra os outros

Estas palavras são apenas de alguns…

Fiquei invisível
Você transparente
E enquanto isso uma violeta em algum lugar do mundo é pintada de carmim a mando da Rainha de Copas

Ou talvez por conta-própria

E foi tão violentamente bonito
Quase sexualmente agressivo
Enérgico enfim
Seu desabrochar tonal

Que os urros dos tormentos internos cessaram
O silêncio dos demônios me deixou em choque
Meus trêmulos joelhos me desabaram no chão
E minha alma transbordou lágrimas infladas

Solucei e gemi até que os cotovelos não mais seguraram meu rosto
Colei-o ao chão procurando agonizante o colo carpetado de ladrilhos frios
Até que a contração do diafragma se tornasse dor física
E o suor junto às lágrimas expelidas do meu corpo
Revelassem seu conteúdo maldito

Meu espírito parecia exercitar-se para qualquer daquelas grandes batalhas
E num último urro – este meu mesmo – A expressão apática e séria quebra todo o choro

Me levanto escorregando em toda a minha água/óleo

Foco

O sorriso irônico no espelho não é mais dele

Esse

É meu!

Talvez depois da guerra
Depois das palavras
Depois de verdades e incertezas
Tenhamos conseguido algo belo novamente

Me sinto mais leve agora
E até um pouquinho mais forte
Agora que sei que a comunicação nunca se perdeu
E sim nós mesmos

Posso ver de novo
Sinto que preciso agradecer por algo
Me sinto altivo
Com um dever cumprido


Silhueta

Não tenho respeito pelo que cativo
E cultivo ciúmes pelo que não é meu
Escondo a verdade de quem dela precisa
Enganando cada peça que move o que sou

Os recados se acumulam sobre mensagens antigas
Esqueci de quem era, não estou
Enquanto a pele não trocar
Não serei capaz de definir minha cor

Ouvir tua voz traz borboletas fantasmas ao meu estômago vazio
Que apesar de vagarem desnorteadas em seu próprio cinza pálido
Ao negro fundo infinito do interno
Batem asas de beija-flor

Na fome ansiosa capaz de engolir o eterno
Há a descrença ignorante que emana dos calos no espírito
Na silhueta formosa de uma memória dopada
Uma promessa tropeçante que distorce ao vibrar dos próprios gritos

Insisto em fazer mal justo por querer bem
Me querendo bem mais
Me fazendo bem melhor
Me desejando um bem maior

Não me diga da qualidade entretiva dos jogos
Da capacidade hostil da perda
Ou mesmo da potência produtiva do ódio
Os erros humanos, sei todos de cor

Há também a fé aleijada no desconhecido
A paixão idiota que nos leva aos encontros
O deslumbre desatento ao contemplar a beleza
E o tombo redentor do abandono do sonho

Há qualquer sentimento altivo e desolador
Em te querer
Ou mesmo em de fato tê-la enfim
Que parece prolongar uma agonia festiva

Que não consegue vislumbrar seu concluir


%d blogueiros gostam disto: