Arquivo do mês: março 2010

Arcano XIII

Gosto das estrelas da nova janela

Gosto do timbre idiota de violão de aço
que o novo disco de folk moderno que baixei tem

Gosto da brisa fria sem impedimento
que invade meu novo quarto na madrugada

E me contentando com tão pouco
Gosto do calor longínquo que se aproxima mais e mais do meu (novo) peito

                                     Boceto

Gosto do jeito que gosto (novamente) das pequenas coisas

Acho até que gostei de morrer

Mas sem dúvida gosto (de novo) de nascer

********

“Boceto en tinta para la muerte, carta del tarot número 13.

Ilustración de Elena Catalán. Todos los derechos reservados ©”

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Syrah

O sorriso dilata em harmonia com o digno suor que escorre de meus braços oficiosos
Tanta plenitude faz vibrarem ossos iludidos de asas
A novidade me assalta qual uma droga desconhecida
E o olhar ingênuo/juvenil espontâneo volta à mim com qualquer traço cruel, oculto e cativante

Aqui abandono ou abraço?

Vai saber…
Se me ocupasse com tais dúvidas mais tempo em minha vida
Não estaria tão absorto em contemplar novidades

que então seriam nuas e inimigas

Inimigo nu se faz de fato o ego espelhado
Gordo e satisfeito
Com cheiro de tinta
Saído do forno

Abraço de modo silencioso e privado
Tudo o que abandonei de modo rude e espetaculoso

Abraço de modo rude e espetaculoso
Tudo o que abandonarei de modo silencioso e privado

A estética é reorganizada em uma nova dança subjetiva
Eu mesmo desconheço tal nova magia minha
Chego a temê-la
Reservado
Consequente

Procuro o impacto elegante de um corpo bem construído
Taninos proeminentes
E aroma festivo


“Ku” Alto

Nada foi construído enquanto muito foi feito
A ironia do amadurescer transparece mais e mais
A adolescência eterna que é ser humano
Mas tudo bem, a luz noturna não mais fere


Hiato Definitivo

“Ainda chove e eu não sei
Se é o efeito desse vinho
A tinta das paredes
As luzes lá de fora
Cinzas como o céu
Perfeito à cada gota
E como calcular?
O jeito do café
Esse gosto de tabaco
O cheiro do incenso
As horas na janela
Minutos que precedem
O fim da tua roupa
Perfeita à cada gota
Que escorre no lençol
Do jeito que puder
Perfeita à cada gota”

O nome da canção é “Hífen” como se fosse o elo para um nome composto

E durante o “desmanche” e agora “desmonte” deste lar

Me soou a canção como tudo o que haveria restado

Achei alguns papéis rasgasdos engraçados

Inúmeras fotografias, aquela masturbação saudosista e idiota a qual recorro em dias nublados

Mesmo animado com a mudança de ventos e de lar, não deixo de notar a pontinha de dor que aparece como uma pedrinha dentro do tênis.

É como se testemunhasse o desmoronamento da própria canção

Que venha o novo enfim…


Boa Noite

Quis tudo com você
A frustração, óbviamente, veio em não conseguir
E datou este eu e você
De maneira tão clara quanto o dia que insistíamos em não perceber

Acabou que as conclusões mais prematuras
Se tornaram as mais sérias
E certas…

Se apega ao teu jogo um pouco mais
Minhas cartas que sempre estiveram na mesa
Você pode conferir

Eu passo…


Eu, ela, o diabo e a vodka

Julgo pelo éter vago
Desperdiçado em etílico cansaço
Me iludo a mais grossa veia
Na divina força de um sonho desmembrado

E juro que neste momento
Eu sou incapaz de concatenar
Meus pensamentos

Onda alta que passa
No amanhecer dessa praça
Riso largo que fica
No rosto usado da menina

E agora somos todos ladrões de corações
Inutilizados em suspiros e visões
E ninguém tem nada para falar sobre isso

A manhã é fixa e carrega seus vagões
Vagabundos tortos se apóiam em seus caixões
Mas ninguém quer pensar sobre isso

Nos seus óculos escuros
Fito meu reflexo mudo
Até penso no futuro
E logo eu esqueço tudo

Nessa briga mole no meio dessa pista
Confundimos todos os pontos de vista
E eis que há mais um sátiro em mais uma esquina
Arruinando adornos belos de nossas vidas


Bliss

Erguei alto tua taça
Ao choque delicado do contentamento
Espirra o pouco que é do santo
E delicia calmo o teu momento

Nos mililitros contados do instante
Te lembra, chora, ri com toda a força
Pois ao chegar a segurança
Nada de fato será a mesma coisa

Curtos minutos de pensamento tempestuoso
Os prezo mais que as horas tediosas do resto da vida
No entanto,
não mais
não agora

Para esta próxima época
Guardei todo o sagrado
Para que da taça translúcida
Me venha a espada cintilante

E que ela finalmente

Escreva ouro em meus cadernos


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