Arquivo do mês: maio 2010

Quase Trinta

Ainda encharcado das águas da fantasia
Com o peito pesado de tanta realidade
Cego pela escuridão no passo a frente
Guiado pelo aprendizado anterior

Sem muita certeza do que está fazendo
Na segurança de estar acostumado com esta rasa idéia

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Desastre Mental

(Cazuza / Renato Ladeira)

Baby, eu lamento
Mas não tenho tempo
Pra sentir as tuas dores
As minhas eu já não agüento

Minha vista torta
Já não se importa
Não me conte um bando de mentiras
Quando eu for fechar a porta

Aqui ninguém entra
Daqui ninguém sai
Somos sobreviventes
De um desastre mental

Não é que eu não ligue
De correr o perigo
De nunca te achar direito

Eu quero de qualquer jeito
Eu tenho que me salvar
Não vá me convencer que está com medo
Que está tarde ou que está cedo

Aqui ninguém entra
Daqui ninguém sai
Nós somos sobreviventes
De um desastre mental

Prefiro te manter
Ao lado direito do meu peito
Por essa razão
Você não navega
É uma queda de avião
No meu coração
Não vá me provocar no fim da festa, não

Aqui ninguém tá morto
E daqui ninguém sai
Nós somos sobreviventes
De um desastre mental


Blognovela Capítulo 1 – Morgana e Matheus

Morgana chegou em casa, aquele micro-cosmo “umbigado” e absurdo que eles chamavam de; “nós dois”. Ela não tinha saúde para notar a bagunça, a louça não lavada de semanas, o pouco caso reinante…
Confusa pela altura do som, a garota enxerga entre os óculos escuros e a luz artificial do apartamento, constantemente com as cortinas todas fechadas, mesmo sendo onze da manhã.
Tropeça no salto, se vinga os atirando pelos ares e arrota uma partícula das oito tequilas que havia tomado com cerveja no “afterhours” de um de seus melhores “amiguis” (para não classificar gênero).
Matheus escutava “Pets” do Porno For Pyros às alturas enquanto chorava de testa numa “long neck” quente.
Sem dizer nada ela vai até a cozinha e joga pedras de gelo num copo longo, ao completá-lo, olha com desprezo da cozinha para a sala e abre a geladeira.
Matheus pára de chorar e começa a se recompor.

_Onde você tava? – Pergunta Matheus sério.
_Te falei, no “after” na casa do Rodrigo.
_ “After” o quê Morgana?

Ela ri.

_“Afterhours”. – Responde sarcástica a caminho do banheiro.

A cara inchada de Matheus inspira qualquer encenação de expressão de tédio, mas as lágrimas rolam forçando o desenho de um Pierrot em seu semblante.
Ele escuta o chuveiro ligando enquanto levanta, escuta ela assobiando enquanto deita e a torneira se fechando ao perder a consciência.

Acordara com o som de Morgana escovando os dentes, se levantou pulando e enfiou a cabeça para dentro do banheiro antes que pudesse abrir os olhos direito.

_Precisamos conversar. – Disse Matheus em tom gutural.

Morgana apenas evitou o último movimento do braço ao se escovar e suspirou com as sobrancelhas erguidas antes de cuspir, Matheus voltou a se deitar.
No batente da porta, ela se escora de calcinha e blusa.

_Fala logo. – Diz imponente.
_Hoje acordei cedo, para variar. Perdi as primeiras aulas que não podia perder, apenas para organizar estes pensamentos…

Morgana se senta impaciente à beira da cama enquanto Matheus continua.

_É que de repente, acho que simplesmente não te amo mais.
Jogando esta bomba de olhos vidrados aos dela, o garoto parece dominado por uma nova coragem que se mostra infalível ao desenvolver de seu monólogo.      Extraindo de si todo o significado de seu sentimento.
_Os meses de paixão, que se tornaram anos de amor, acabaram por mostrar alguns anos de cumplicidade, ultimamente tudo o que parece ter ficado destes tempos é uma enorme e fria estima, uma complicada amizade.
É que não entendo, ou não gosto, de hoje apenas me contentar com este amontoado de cicatrizes, calos e arestas que nossa relação me proveu.

A expressão indiferente de Morgana quebra em uma de estranhamento.

_Existe de fato um lado meu que não mais te suporta, parece fadigado com o peso de te compreender. E hoje acordo como que desencantado, como se de uma hora para outra não ache mais nada justo.

A garota parece desmontar em indignação silenciosa.

_Te adoro, ternamente, mas não sei se isso é o suficiente para que possamos conviver sob o mesmo teto, muito menos na mesma cama. Ao contrário de como antes me sentia em relação a esta idéia, estou tranqüilo, não esboço um choro ou sequer me sinto triste.
Tudo o que nos ensinamos penso cessar seu desenvolver, sem mais nem menos me vejo atrasado, para trás, como se todos os meus desejos estivessem de um lado do cabo de guerra e você do outro.
Junto aos desejos está o sonho, e você simplesmente não parece se encaixar àquele lado.
É de fato uma pena, não sei nem como colocar esta idéia,se é que esta atitude é de fato uma idéia, em prática. Hoje, nesta manhã, deixei de enxergar nosso caminho e comecei a vislumbrar o meu próprio, um caminho com mais tempo para mim.

Ela ri impaciente, sem mudar a posição.

_Um caminho mais saudável, mais diurno, com mais vida e luz, em dias em que eu possa acordar tranquilamente sem me arrepiar ao te escutar chamando meu nome, sem ter que despreender energia em te consolar ou cuidar para que você não exploda.
Num dia com tempo para todos os projetos, apenas finais de semana de festa.
No alto de meu alcoolismo, parece que fui iluminado.
Sim, há coisas que não me desceram e não. Você ir me buscar um drinque e se enroscar com alguém não é a mesma coisa que eu não lavar minhas meias ou sei lá o que! E se é, não quero mais aceitar seu juízo de valores trocados. – Conclui Matheus já de pé e eufórico.

Morgana resolve que quer realmente que Matheus acabe o que tem à dizer, talvez fosse este o momento.

_A verdade é que me tornei cabeça dura e há fatores que me incomodam muito.  Fatores talvez insuportáveis e incabíveis no modo que agora pretendo conduzir as coisas.
O álcool, você, as pessoas, esta cidade, tudo parece me sufocar junto ao amontoado de calos e cicatrizes que citei anteriormente.
Tô precisando voar, me deixa voar, ah Morgana…
É uma pena dizer que o maior benefício que pode me trazer nestes tempos é me deixar deixar você. – Diz apertando as bochechas de Morgana já cheia de lágrimas nos olhos.

Ela encolhe olhando para o lado em negação, ele firma a cabeça da garota para que olhe em seus olhos e continua emocionado;
_É uma pena dizer que estou desencantado, entender que este sentimento é passível de expirar dessa maneira tão frágil.

Morgana soluça enquanto esboça qualquer frase em reação.


A Ilusão da Espada

Durante muito tempo nós gostamos das borboletas
O sentimento incompleto e ao mesmo tempo preenchido que seu farfalear nos trazia
Mas ninguém se move com brisa
Ou se alimenta de luz

E a estrutura invisível, presente e opressora
Um dia sempre desce à separar homens de meninos
Sempre pegos com adagas curtas para tamanho dragão

Entender que o processo nada tem à ver com o final das coisas
É forjar à si uma poderosa espada
Olha agora o dengo com o que o mundo gira
Tal qual um bebê satisfeito

Intoxicado na egolatria adolescente
Nunca teria percebido o que me atingiu

Na arqueologia auto biográfica que me embrenhei
Acabei notando que meu menino tinha algo na cabeça afinal
E que talvez este sempre tenha sido o plano

Maquiavélico

O fim à justificar meios tão cruéis


Aonde

E lá estavam eles!

Mas onde estava você?

Problema meu

Talvez…


Salmos do Velho Sentimento

Brotou

De um silêncio constrangedor em algum momento
Num passado longínqüo nasceu o sentimento
Geração espontânea que se tornaria periódicamente desagradável
Se não fosse por todo seu poder de sentir

Recém-nascido esse menino já fazia graça
Engordava e crescia sem ser alimentado
Dava atenção sem que lhe fosse pedido

E nas idas e vindas de seus portadores
O sentimento foi abusado
Agredido, drogado, abandonado
Por diversas vezes sufocado
Em seu trilhar

O sentimento envelhecera
Não podia mais sentir na vibração da juventude
E morreu
Só e louco

As cartas e os telefonemas são inúteis

No desfibrilar de tal sentimento


Onde virei à esquerda

O plano dizia para eu acordar
Pois dormia demais
Pois estava acontecendo
Sem a minha presença

O plano incluía em algum ponto do caminho
Abandonar a fraqueza
Abandonar a juventude

O plano era inspirador

Não, não condizia com a realidade de fato
Mas era contagiante

Por outro lado
A imprevisível possibilidade de não ter plano nenhum
Era um plano muito mais emocionante
Para não dizer suicida

E enquanto os corvos abandonavam a torre o espantalho ria

E ao mesmo tempo

Se sentia só


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