Arquivo do mês: outubro 2010

Tudo em Dia

(Arnaldo Antunes / Branco Mello / Sérgio Britto

Vou comprar uma casa,
Vou ganhar dinheiro
Vou pensar no futuro,
vou fazer um seguro

Vou ganhar o pão nosso de cada dia
Vou por tudo o que tenho na garantia

Vou ter conta no banco,
vou trabalhar no escritório
Vou tomar um chope,
vou tomar sorvete

Vou tomar remédio, que maravilha
Vou casar e constituir família

Vou andar de táxi,
vou deixar o troco
Vou pagar os impostos,
vou por os filhos na escola

Vou ser respeitado,
vou engraxar o sapato
Vou botar o chinelo,
vou sentar na poltrona

Vou jantar na melhor churrascaria
Vou pedalar domingo na ciclovia

Vou ter conta na mercearia
Vou gozar a aposentadoria

Vou ter cic, eleitor, reservista, rg
Automóvel, tv
Crediário, poupança, carnê

Tudo em dia

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Elogios Curtos

O sonho

é de fato uma tatuagem,
como a de Chico Buarque,
algo com amor e dor em rima pobre
mas com gosto de ódio
que lhe faz segurar o sofrimento da estética pelo gozo.

O desejo

é vilão,
má influência para o sonho e agente duplo em relação ao amor.
Para o romântico,
desejo e fome estão lado a lado, como os gêmeos perpétuos Desejo e Desespero.

A força

é um presente,
dado aos poucos,
a cada ato nobre ou heróico se consegue mais um pouquinho,
ela é plena, justa e certa,
sempre.

A calma,

essencial, sublime,
ah… a calma…
hoje a desconheço,
mas já a soube,
de maneira real,
a calma é o plano e a execução,
ingrediente para toda plenitude.

A fé
 
assume várias formas,
desespero,
auto-confiança,
êxtase,
esperança,
força…
um fluido tão volátil se apresenta como o coringa da existência
e um poderoso combustível por princípio.


Por Todas as Nossas Vidas

Era tanto brilho em cada entrada,
tanta razão em cada gota de suor,
tanto amor em cada palavra.

Não alguém cheio de si e sim cheio de mundo,
preenchido com os outros,
completo em seu caminho.

Não havia nuvem no céu ou carteira vazia que pudessem lhe tirar aquele sorriso do rosto.
Sorriso certo que só tem aqueles que confiam na vida e na mágica que a tempera

Sempre havia como prevenir,
como ser melhor.

Tudo o que tocava parecia dar certo
Assim era antes de ser formalmente apresentado à realidade.

Para este venusiano,
seqüelado pelo efeito colateral de sua jornada ao próprio umbigo,
tudo parece algo como uma enorme colônia de bactérias.
Vivendo fervorosamente suas vidinhas inúteis
sem ao menos perceber que estão sendo usadas pelo grande lagarto.

Este as carrega em sua boca
e as alimenta se alimentando por elas.

Quantas direções dei?
Quem pilota agora?
Quanto estou me expondo?

Bah!

Se preservar é só uma virtude que você já arrasta pelas sarjetas do mundo há algum tempo.
O garçonzinho infeliz que matou a Rê Bordosa.

Eles me dão,
me dão como se dá um imã a uma bússola.
Neste enorme shopping center,
as pessoas completas me soam batatas perdidas num sundae.

E meu cú detesta calda de morango!

De Lunes a Viernes,
nossas queridinhas que usam suas botinhas de Peter Pan no final de semana,
se escondem em fantasias de aspones corporativas.

O pior; é capaz de alguma delas salvar o mundo antes de mim.

Controlando-se o silício ou o silicone, controla-se o mundo

Nervos e sinapses como uma árvore de natal.

Continuamos querendo sair,
continuamos sem dinheiro,
meus amigos e eu,
estamos todos querendo fugir do emprego.

Todos estes dez anos que passam de dez em dez anos.
Pobreza.

Meu espírito “altivo” por assim dizer…
…o vi de verdade mais uma vez,

desta,

me bastaram meio comprimido,
três cervejas e duas vodkas.
Acho até que agora sei quem sou.

Quem precisa de horas de sono e alimentação saudável,
num tempo onde a morte cerebral pré-matura de toda uma juventude não faz a menor diferença?

Não olhe agora, mas acho que você anda se perseguindo.

Para piorar a situação, a culpa toda é do amor…
…insiste em nos salvar justo quando finalmente íamos entender alguma coisa!
Crescer é engraçado…
…as coisas vão ficando sérias.


Como Se o Meu Corpo Fosse um Retrato do Dia

Como se esta imagem fosse uma outra pessoa
Como se o teu beijo fosse um cartão de visitas

Como se esta imagem não fosse de fato a pessoa
Como se o meu sono fosse afastar o passado

Como se o teu corpo fosse um abrigo distante
Como se os teus beijos pudessem afogar a ternura

Como se o teu corpo fosse algum brinde da noite

Como se eu moldasse em diante a história
Como se  fosse algo palpável


Da Normalidade

Fecho a última planilha do excell
Escuto a primeira das dezoito badaladas
Dos imensos sinos
Da maior catedral do meu país

Me dizendo que é hora de voltar para casa

Acendo o cigarro da vitória já na rua

Passo pelo marco zero

Em outros séculos ali estaria um caxeiro viajante
Mostrando os milagres de seu novo tônico

Hoje há um pastor iniciante
Em sua coreografia do bem contra o mal
Com o triplo de público do pobre e talentoso repentista
Que se apresenta às portas da Igreja

Atravesso

Feliz pela sexta-feira

Entro na fila para o metrô

E me despeço da normalidade
Por todas as horas do final de semana


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