Arquivo do mês: dezembro 2010

Metamorfose

As angústias
Larvas sedentas de atenção

Se retorcem em pânico
Sabem que o ano novo está lá fora
E dentro do meu estômago procuram as reentrâncias
Se escondem em forma de nós na garganta
E apertos no peito

Pobres animaizinhos
Ainda não sabem que o verão não está aí para exterminá-las

Sim para fazê-las hibernarem
Assim passarão duas estações

Para no inverno voltarem em forma de borboletas
Que há tanto esperava sentir de novo

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Muzika (2005)

Peco pelo humor negro e por meu vício em querer purgar

Desconstruir o que é certo,
Fazendo encaixar em negativo

Bolas, as drogas
Já não me trazem mais bom-humor

Que droga!

Como é que eu vou sorrir agora?
Controla!

…não me deixa sair assim, lá fora.

Os outros são hostis, meu bem.

Há tanto fogo em nosso paraíso
Tanto buraco neste meu juízo
Como há álcool na geladeira

Será que a minha história vai vender?
Será que eu consigo ser interessante?

O suficiente para ganhar dinheiro e te dar aquele sorvete importado

Que cê gosta tanto…


Bolas de Natal

Crescimento

“É esquisito este limbo todo e esta tentativa tão mal-arrumada de resgate que andamos tentando, nós, nossos antigos eus.”

E Traição

“…uma aventura individualista e não uma resolução emergencial e inconseqüente da própria vaidade.”

“Sei lá no que viajei, minha alma parecia estar enclausurada numa solitária de discursos no imperativo ou vai ver foi só sacanagem mesmo.”

“…nunca me imaginei sem ela neste futuro, ao menos não nos últimos dois anos.”


V

Há metafísica demais em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das coisas?
Que opnião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica a delas,
Que é a de não saberem para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das coisas”…
“Sentido íntimo do universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele toda hora,
E a minha vida é uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de sí próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda hora.

(Pessoa)


Em Atenas

Do que os tortos sábios disseram
Aprendemos tudo errado

Pro que os descolados usaram
Conduzimos todo o foco

E todo esse discurso
Nossos sonhos medíocres
A vontade tapada
Cretinice

Lá se vai a elegância
Aí tende ao absurdo
E se perde a esperança
Se cometem abusos

Helenas

E o jogo segue, anos e anos à fio

Obscenas

E contabilizamos em litros
Toda essa nossa angústia
E elas estão sempre lá
Indicando o volume da frustração

E eu, que não sinto mais nada

Por ninguém

Sofro por não poder retribuir
O brilho inoxidável de seus gládios


Teu Corte

Desmanchei tanto sorriso teu
E mesmo neste inverno amarelo que foram os dias
Você sempre brilhava ao me ver
E eu achava curioso

Nunca entendi te encher com tanta luz
Sendo este buraco negro emocional
Eu só não sinto mais
Sabendo do melhor que foi

Antes quebrado
Que despedaçado

É que eu não sei mais sentir

Me desculpa se é assim
Com cara de brinquedo com defeito
Com gosto de verão passado

Tenho sido assim há tanto tempo
Que arrisco dizer que assim sou

Este mesmo tempo vai levar eu de você
E quando isso acontecer
A gente vai ser leve como deveria
Não nega tão tenra amizade

Cuida da ferida com carinho


Para o bem

Todo o concreto ensaiado
Na frieza da distância forçada
Nos dentes cerrados
e olhos que ignoram o implorar das tuas chamadas

Toda a arquitetura

Impecável deste monstro

E todo o sadismo

Do meu insaciável demônio

Tudo isso
ruiu em compaixão

Desmanchando-se em lágrimas redentoras

Quando tua trêmula voz
Elogiou enfraquecida
Meu quem enaltecido
Que só aos teus olhos
Parecia de fato existir

Assim vi de verdade
Que era melhor te libertar
Ao invés de te iludir


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