Arquivo do mês: janeiro 2011

Sem Deixar a Fome Passar

O buraco de agulha formado pela pupila ao sol de meio dia na praça assim pede
Enquanto pulsa o sangue caudaloso bombeado pela ordem expressa da vontade
Guarda teus óculos escuros que o céu quer te ver e por você ser visto

Nunca é tarde e o dia brilha

Se teus olhos já chamam as pálpebras ao chão
E teus passos escorrem por mais de um segundo e meio cada
Tuas cortinas já o delataram
Mofadas e fechadas ao cheiro defumado do suor e dos cigarros no verão
Se tua casa não te convida, quem mais há de estender-te a mão?

Pois é só tua a missão
Do comprido ao cumprido
A ausência de hesitação há de ser regra
A cidade faminta não te espera engordar
E muito menos é sensível ao choro infantil

Mas nunca há véu noturno para tal fio de espada

E lá se vão os sapatos e meias e dramas
Janelas abertas vaporizando a cama
Estampidos internos surdos ao estalar dos ossos contidos pelos músculos

Na atividade de cada calo
A dignidade do suor transbordado

“Bom dia mundo, você já me engoliu hoje?”

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Dosage Del´art

Todo o romantismo que subvertemos em libertinagem
Nos proporcionou uma ótica revolucionária sobre o mundo à volta
Nos roubando o que talvez tenha sido um pedaço considerável da nossa inocência
Mas discursar sobre a degradação inerente ao amadurecimento seria apenas me repetir
O que me gasta é o desamor com o qual as pessoas andam lidando
Não apenas com as coisas, mas com os outros
E falar da falta de compaixão humana, também vai soar piegas

Emudeço, não em protesto mas aceitação
Ofereço os punhos para as amarras
E estudo o mercado em busca do lucro perdido

-Lembrando e aprendendo

A cada pensamento espontâneo reprimido
Cada gargalhada inoportuna
Cada discussão que me inquieta a alma
mas que por não ter valor financeiro se torna automaticamente desinteressante
Cada bandinha adolescente “desproblemática”

-Que o mundo não dá espaço

Para quem só quer uma vidinha…

…um pouco menos ordinária


Cimento

Eu só queria saber quem vai dizer: “Bom dia” amanhã
Queria um muito obrigado que não fosse obrigado
Um olá sem que fosse ensaiado
Um com licença fora do automático

Queria ver um sorriso que não fosse distorcido do entorpecente
Um dia completo longe dessa enorme névoa fluorescente
Pro meu amor terno e florescente
Me livrar de uma promessa decadente


Táxi

Ai madrugada que é incapaz de me abandonar
Ai de mim
Amo-te
Do âmago

Ai cicatriz ruim dolorosa a me infeccionar
Ai de mim
Odeio-te
Do âmago

Seria legal se você fingisse melhor
Desprezasse mais
Rompesse de verdade

Os gritos no escuro não são afeto
Apenas vizinhos barulhentos


Politeísmo

As coisas chegaram num ponto…

…ao menos isso.

Realmente não me importo com o daqui para frente
cê sabe que nunca foi importante.

O que vier
Maldição
Bonança
Tempestade

Graças aos teus deuses

Sempre estarei preparado!


Baixando a Guarda

Gosto da maneira com a qual você finge que não me conhece só para não me perder

Gosto da menina que fica em meu colo e da mulher que discute nossos impasses

Gosto da ânsia que tem em argumentar e o jeito que detesta deixar o assunto morrer

Gosto de como faz parecer inofensiva a minha loucura e assim impede o desgaste

 

Gosto do conjunto da obra que teu rosto faz com teu corpo

Gosto da maneira despudorada dos teus constrangimentos

Gosto de conseguir ver sempre nos teus olhos algo belo e novo

Gosto do lógico abstrato e da constância caótica do teu pensamento

 

Vou conseguir abandonar meu medo

Vou conseguir estabilizar meu ser

Vou admitir para mim mesmo

Que posso ser mais eu com você


Conto da Madrugada

               Já havia um tempo que eu não voltava à Maravilhas, as coisas estavam diferentes, as obras públicas e estabelecimentos chiques que se erguiam novos desabando a velha monotonia aspirava a verdadeira novidade, mas nem tudo havia mudado tanto assim, os locais ali ainda sabiam como produzir uma boa festa.

               Ele buzinou para que eu descesse, muitos anos sem vê-lo e um longo telefonema na noite anterior teria me provado que certas amizades definitivamente não envelhecem. Logo que entrei no carro lembrei de comentar:

               _Lewis, aquilo que você me disse ontem me fudeu!

               _Como assim D?

               _Não consigo dormir com o espelho no quarto e acho que nunca mais vou jogar baralho.

               Eles riram e foi então que notei a garotinha no banco de trás.

               _Essa é a minha enteada. – Explicou Lewis.

               _Oi. – Disse a garota.

               Disfarçando com o tom de voz mais baixo, perguntei à Lewis se não era contraproducente levar uma garota tão jovem ao lugar que estávamos indo.

               _Nada, ela já é bem grandinha, não é Alice?

               _Faço treze mês que vem! – Respondeu sorrindo.

               Achei melhor ignorar, de qualquer maneira eu não era seu responsável legal e continuamos descendo a estrada. Lewis pegou uns amigos no caminho, eles estavam com aquelas pastilhas coloridas que nós gostávamos de usar na adolescência e um deles me esticou um livro e um canudo, em cima do livro haviam várias linhas que ele esperava que eu aspirasse. O que eu podia fazer? Estava de férias mesmo.

               Mais tarde, em companhia de vários meninos perdidos e completamente atravessado de pirlimpimpim, andávamos pelo bairro boêmio seguindo o pentelho do coelho que não calava a boca um segundo.

               _É tarde, é tarde! – Repetia.

               _Cala a boca criança, senão faço do teu pé um chaveiro! – Exclamou Lewis já sem paciência nenhuma – Quem foi que pôs energético na vodka dele hein?!

               _Chegamos, chegamos! – Gritou o coelho, animadíssimo pela balada ainda estar bombando.

               Era uma biboca no final de um quarteirão fechado, com letras queimadas de neon dizendo: “Terra do Nunca” e uma fila gigantesca mas Lewis conhecia o dono; um gordinho num terno lilás, com um bigode fino e um sorriso bobo estampado na cara, ele nos colocou para dentro pelos fundos. Sujeito engraçado, ficamos falando sobre amenidades e toda hora ele sumia para resolver alguma coisa, uma vez fora pegar um drink para mim e quando voltou tudo o que eu conseguia ver era seu sorriso, as luzes da boate eram da mesma cor de seu terno.

               _Você já viu esse DJ? Ele é o melhor da cidade! – Comenta o gordinho.

               De fato, o enorme inglês de tapa olho e perna de pau, armado de duas pick-ups, mandava graves de canhões e com seu sabre era o melhor no “stab”! Embalado pelo som me pus a conversar com duas fadinhas de couro preto e chicote. As simpáticas e perversas criaturas da floresta me levaram para o fundo e por um minuto voltei a ser criança. Elas perguntavam quem era a mamãe, diziam que eu tinha sido um mau menino e me bateram até eu chorar.

               Quando a balada acabou fomos para a casa de outro cara para um after. Eu tava na varanda entretido com as sereias que nadavam na piscina lá embaixo mas a namorada do tio de cartola não me deixava em paz, tava me enchendo tanto o saco que o Lewis até tentou me ajudar.

               _Quem foi que deu café para a Lebre? Vocês não sabem que ela só toma chá?! – Exclamou Lewis

               Tava ficando tarde e quando a Lebre e o Coelho se trancaram no quarto para uma suruba hiperativa eu vi que tava quase na hora da Caravela encantada das cinco e meia passar. Lewis não ia me dar carona, já tinha se trancado no outro quarto com a enteada, irgh!

               Na volta para casa, no último banco, eu trocava idéia com Tootles, ele falava incessantemente sobre umas tais bolinhas que havia perdido. Estava muito feliz com a noite, mas no caminho, depois de alguns minutos, a caravela se transformou num ônibus circular, Tootles num viciado atrás de crack e notei que o filho da puta do coelho tinha ficado com todo o meu pirlimpimpim!


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