Arquivo do mês: março 2011

Arte pela arte

Minha mãe sempre teve horror dos meus questionamentos
Aquele moleque mala que perguntava sobre tudo e dava pitaco em todos os métodos vigentes.
Costumava dizer que filosofia não enche barriga
Enquanto eu estava tentando esmiuçar um assunto para compreendê-lo totalmente
Para ela eu estava enrolando para não ter que tomar nenhuma atitude

Enfim, quem diria que ela se tornaria uma artista?
E sua arte encheu sua barriga até que o mercado a pusesse de lado

Ela então entendeu assim;

arte = técnica + mercado = $

logo

arte = $

Na prática o que aconteceu foi mais ou menos

Arte = técnica + ferramenta + mercado | arte = $

Depois de alguns anos ocorreu uma variação nessa equação e ela ficou assim

A = Tec – F – M | A = -$

E isso foi o suficiente para que ela nunca mais acreditasse no poder transcendental do impulso artístico.

Minha mãe nunca parou para pensar
Que talvez se ela tivesse dado um pouco mais de crédito para a filosofia
Iria entender que calculava variáveis erradas

Técnica não é talento
Ferramenta não é paixão
O mercado não é criativo

E principalmente

NÃO SE CALCULA O PODER TRANSCENDENTAL DO IMPULSO ARTÍSTICO!

Eu queria ganhar dinheiro com a minha arte

Mas felizmente

Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Anúncios

O monstro em cima da cama

Você viu os deslizes com seus próprios olhos
Escutou as piores frases da minha própria boca
E a verdade perdeu o tom virtuoso
Junto ao cheiro de tutti-frutti que tinha na infância

A verdade é tão selvagem e impiedosa quanto o amor
Dois súcubes infernais e sedentos quando genuínos
Travestidos de virtudes, mimetizando qualquer nobreza
Ao passo que escondem sua verdadeira natureza no mundo

Purgar

Cabe ao puro sobreviver

A dependência emocional festeja num ritual pagão
Dançando alegre sobre nossas carcaças no rolete
Nada mais aprazível para tal entidade
Que este zelo descuidado, esse compromisso ausente

Eu sei que entrego tudo nas mãos de um destino autista
No imbatível desânimo de fazer qualquer coisa florescer
E isso não vai mudar
Nem pelo constante oscilar destes sentimentos todos

A indiferença me protege melhor que a pureza


Knife Party

As gotas ácidas da minha saliva corroeram o diálogo/Foram prontamente defendidas com um meio-sorriso em desprezo/Com o polegar cheguei a tirar o botão de segurança da bainha/Esperei pela estiletada clássica, mas ela nunca veio 

Pára tudo

Deixei minha faca escorregar novamente para a capa de couro/Ao notar que seu meio sorriso ao contrário de antes/Não era desprezo em ataque/Era apatia de verdade/Vi nos seus olhos toda a exaustão

Você não queria mais brigar

No começo não entendi, provoquei/Com uma ou duas investidas fortes nas costelas/Mas o sangue foi pouco/ E nossa violência já era desnecessária

“Céus, se não posso matar e nem posso ter, o que mais se há de fazer?”

E me lembrei do início/Antes de forjar estas nossas lâminas/Quando tínhamos as arestas um pouco mais aparadas/E foi aí que eu entendi/Não havia mais nada à fazer senão guardar as armas/Reaprender o nosso dialogar/Tive mesmo que relembrar como era me dirigir com educação/ Te esperar falar, responder de fato /Não de ódio/Senti um pontinho de calor no peito/A nostalgia de nossos diálogos não-letais/O início do fim teria sido a troca da palavra pela lâmina 

É um imenso prazer reconhecê-la


Antes disso tudo

Aguardo a visita de um fantasma
Polegadas de cinzas que desabam do cigarro
Marcam o tempo num suspiro maduro
No ruído do silêncio

Depois da era que nos passou
A frieza amistosa é inevitável
O modo de operação muda
Conforme atualizamos a plataforma

“Lembra…
…quando você tinha essa idade?”
Ela passa o cabelo por trás da orelha…
(Não por qualquer tipo de constrangimento ingênuo diante do objeto de desejo
Mas apenas pelo vento que fazia os fios mais curtos chicotearem seus olhos.)

…e sorri

(Não por qualquer traço feminino vingativo que pudesse lhe escapar
Mas por compaixão ao reconhecer o complicado estado emocional o qual sua jovem sucessora atravessava.)

“Lembra…
…quando você ainda era capaz de gostar de alguém?
Abaixei meus olhos para o asfalto…
(Não por vergonha de qualquer ação que tenha executado ou frase que tenha dito
Mas para relembrar atitudes sobre as quais nunca houve arrependimento.)

…e sorri

(Não com qualquer tom jocoso ou irônico dentro do contexto de tal encontro
Mas por concluir que o caminhar das pessoas não é necessariamente atrelado a qualquer tipo de escolha tida como certa.)

E assim que eu disse mais três ou quatro coisas sobre o dia e a vida
Aquele caminhão de amargura materna quase maquiada de zêlo despencou sobre mim
Mas não era como se ela não pudesse desempenhar tal papel

E mais uma vez nos demos adeus
Com a frieza estável da maturidade
No terno carinho das lembranças mais vagas


%d blogueiros gostam disto: