Arquivo do mês: abril 2011

Exdolescido

Será que os planos grandiosos de quando tudo era ainda possível
A noção de que se é pleno e potente
A cor que se ganha ao invadir da felicidade
O horror da falta, a violência da perda e o magnetismo do suicídio
A falta de paciência em contradição com a imensa calma e comodismo
O sentimento inevitável de vertigem, queda verdadeira; vê-la passar, arrancar-lhe um sorriso ou mesmo um bom dia…

…e o sabor de todos aqueles dias

Eram apenas efeitos colaterais de uma ebulição hormonal temporária?

Devo agradecer então a minha ter durado tanto.

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Cinza, azul e laranja

O dia que começa para os outros tantos habitantes
Relembra o sono perdido por parecer mera extensão do ontem

Dado errôneo em conexão perdida

Quero ver algo belo
Quero ter algo logo
Quero ser alguém novo

Já estava cansado antes do dia raiar

No início da corrida poupamos energia
E segunda-feira é um tiro de largada
Terei fé que tudo seguirá bem
Mas não me pede pró-atividade

Hoje não

No caminho para cá o tempo ficou mais largo
O gosto do doce que tiraram da minha boca há tanto tempo
Já nem atiça mais meu paladar
Memória gustativa deletada dando espaço para a fome

Água fria
Para o nascimento de mais um dia


Para Chamar de Seu

Viradas que propiciam desencontros
Impulsos que conduzem ao desastre
Passagens que remetem ao gozo
De dias e noites passados

O que fervilha no caldeirão destas vidas
Um tom de defeito num traço qualquer de vertigem
Onde nossos sentimentos mais corruptos inflam
Ali ela está,imperfeição metida a sonho

Um grau mais frio
Dois dedos mais baixo
Um kilo mais leve
Dois tons mais grave

Foi como a informação me atingiu
Foi como a idéia me deixou
Foi o fim do que não houve
E o início do que não será

O problema é que neste cenário

(Enquanto o cenário se expande eu vejo em diferentes luzes.
A penumbra e as sombras ondulam à minha percepção.
Meus sentimentos se esticam e incham – vejo de maiores alturas.
Entendo o que ainda sou muito orgulhoso para mencionar à você)

Nunca colho as soluções resultantes dos conflitos


Blognovela Capítulo 3 – Sir Louis Pub

A saia girava em lâmina paralela a seus braços abertos que estendiam sua presença ao público como uma bênção. As paredes úmidas do inferninho rock ´n roll estavam bem longe do Bolshoi. O giro da vocalista no entanto, era impecável.

Os homens e mulheres do local assistiam ao show num silêncio embasbacado que Tiago não consegue ignorar.

_Que mulher é essa?! – Exclama ele ao amigo na platéia enquanto espreme um copo de plástico de Teacher´s com “gelo até o teto”.

_É a Carol, trabalha no bar durante a semana.

_No seu bar? – Pergunta entortando a cabeça noventa graus..

Luís não se contém e com a mão no ombro do camarada e um sorriso cheio de dentes completa satisfeito:

_Sim… No meu bar!

Aproveitando a súbita proximidade, os dois cavalheiros oferecem uma saideira para a banda, mais uma vez Luís abria seu bar às duas da manhã para um afterhours.

Os integrantes do grupo e mais alguns convidados próximos levantam a porta de ferro meio-aberta e revelam o belo e aconchegante pub estilo irlandês que nunca pareceu tão radiante para Tiago como agora. Estático a contemplar a graciosidade com a qual a ruiva se lança para trás do balcão e separa suas ferramentas para a confecção de um coquetel.

_Estou fazendo uma Margarita, o que você vai tomar? – Pergunta Carolina o fitando pelo espelho atrás das garrafas da estante.

_Uma skol mesmo. – Responde o garoto ainda um pouco constrangido.

Carol abre o freezer com o pé e gira para fora uma long neck com a mão esquerda a colocando em cima do balcão enquanto mantém a coqueteleira na direita, tudo isso sem tirar os olhos de Tiago pelo espelho. Ela ri meiga, ela sorri o fim do mundo

_Você sorri o fim do mundo. – Pensa alto.

_O quê? – Pergunta a garota enquanto se vira chacoalhando o preparado.

_Ahn, obrigado por tudo! – Diz sem jeito.

Tiago se afasta antes de escutar o: “Tudo o que?” que Carolina devolveu e senta-se atrapalhado ao lado de Luís que escolhe a música.

_Lulu, eu tô apaixonado. – Diz Tiago sem tirar os olhos do bar.

Luís tira os olhos do disco e sorri para o amigo

_Agora eu achei, Morphine! – Diz ele contente enquanto enfia o cd no aparelho de som.

Com isso dito Luís se senta habilidosamente na cadeira oposta a de Tiago e com os olhos vidrados aproxima o rosto ao do amigo falando em tom sério.

_Todos os funcionários fazem um teste psicológico para entrar, entre as diferentes provas tem uma de Q.I..

_Você é que devia ser testado psicologicamente.

_Isso é idéia do maluco do Marcus, mas escuta! – Diz ele pedindo atenção enquanto vira a cabeça de Tiago para o bar. – Aquela gatinha tem o Q.I. cento e setenta e oito! A minha Bartender podia ser da Sigma Society!

_Sigma o quê?!

_São os novos tempos, a mão de obra tá pagando bem e a classe média tá falida.

Conclui Luís antes de se levantar para pegar uma cerveja, deixando Tiago sozinho com seus pensamentos; “Cento e setenta e oito? Isso é muito?”

A garota se junta à mesa com sua belíssima Margarita nas mãos e o mesmo sorriso de antes. Com olhos nos olhos ela se apresenta;

_Oi, meu nome é Carolina, e o seu?

_Tiago.

_Gostou do show Tiago?

_Achei fantástico, muito bom!

_Obrigada, hoje a gente estava num dia bom mesmo, poucos erros.

_Não vi ninguém errando nada. – sorria encantado.

Carolina e Tiago trocam uma idéia agradável, e o tempo voa enquanto eles descobrem que tem muito em comum.

_Sério?! Achei que era a única idiota que depois da infância não conseguia dormir com o armário aberto!

_Tenho verdadeiro pânico, sério mesmo.

Os dois riem em volume mais alto, Lulu passa pela mesa e parece grato em ver os amigos se dando bem. A etapa dois desta aproximação incluiria o reconhecimento dos corpos.

_É uma tatuagem? – Pergunta Thiago notando as letras que saíam debaixo da blusa de Carolina.

_Sim. – Diz a menina arregaçando a manga a exibir a frase tatuada em espiral no braço.

_O que diz?

_Ars longa, vita brevis. Significa: “Arte longa, vida curta”.

_Hã… bonito isso. – Comenta Tiago antes de um gole na tentativa de relaxar.

_É uma tradução para o latim de uma frase de Hipócrates. Na verdade muita gente, eu inclusive, usamos ela fora de contexto.

_Como? – Pergunta ele que já teria perdido o assunto no momento em que ela disse “Hipócrates”.

_ A arte a qual ele se referia era a medicina e os longos anos de estudo necessários para o seu exercício e domínio. Mas a maioria das pessoas gosta de entender a frase como um protesto punk. – Ri Carol – Parece que quem a traduziu foi Horácio.

_Horácio?

_Um poeta da Roma antiga.

_Ahn… – Concorda Tiago, disfarçando sua ignorância.

Aos olhos doces dela Tiago já sentia vertigem, como se prevendo a queda. As malditas borboletas e seu farfalear insano o levariam novamente ao romance.

Neste momento Carolina pede licença para que possa atender o telefone num lugar mais reservado, parecia importante.

Um pouco impaciente com a interrupção, a garota recebe a chamada do celular.

_Fala amiga, seja breve.

_Acabou Carol! Acabou tudo.

_Calma garota, recomponha-se! – Diz Carolina enquanto sorri sem graça para Tiago e se levanta afastando-se. Ao chegar numa distância que permitisse discrição ela responde;

_Acabou o que Morgana? Você e o Matheus brigam desde que eu te conheço!

_Dessa vez é sério Carol, eu fui pra casa da minha mãe e ele ta com um amigo.

_Meu Deus Morgana, quando isso aconteceu?

_Ontem. – Diz chorosa ao telefone.

_Onde você ta?

_Na casa da minha mãe.

_Eu vou passar aí e a gente faz alguma coisa junta e conversa, pode ser?

_Tá bom amiga, valeu.

 Carolina retorna a mesa para se despedir de Tiago e os demais.

_Tem certeza? A gente ia abrir um champagne.

_Espumante. – Diz Carolina.

_O quê? – Pergunta o rapaz sem compreender a correção.

_Chamemos de “emergência familiar”. Diz ela sem paciência para explicar. Há um breve silêncio enquanto Carolina parece que pondera algo.

_Posso pegar seu telefone? – Ele pergunta disfarçando a ansiedade.

Ela dá um sorriso maroto de olhos apertados.

_Pode sim, anota aí…

Ele saca o celular e prontamente digita o número de Carolina, esta então despede dos outros e sai esbaforida pela porta de ferro.

Algum tempo depois o resto dos convidados vai embora e Luís e Tiago bêbados escutam som.

_Aí Tiagão, descolou o telefone da solteira mais cobiçada da cidade! E vou te contar, essa daí é difícil.

_É mesmo? Essa não deu pro Marcus?

_Essa não – sorri Luís – essa é de verdade!

_Meu tipo de garota! – Sorri o recém apaixonado.

Eram quatro da manhã e Morgana de maquiagem borrada bebia ainda mais na caçamba da pick up de Carolina que neste momento se encontrava estacionada em frente a uma loja de conveniência.

_Eu nem sei por que eu to assim, a coisa já estava insustentável mesmo.

_Verdade, sabe que eu conheci um gatinho hoje? – Pergunta Carolina tentando fazer a amiga mudar de assunto.

_É? – Diz Morgana tentando focar.

_É! – Responde a amiga entusiasmada.

_Então enfia ele no seu cú! Porra Carolina eu to aqui chorando minhas mágoas e tu vem me falar de gatinho que conheceu, faça-me o favor!

_Calma, to tentando diminuir sua obssessão!

_Sabe o que vai diminuir minha obssessão? – Diz Morgana tentando olhar nos olhos.

_O quê? – Pergunta Carolina se esforçando para não rir.

_Dar! Vou dar muito, vou dar pra essa cidade inteira, vou dar pra caralho literalmente!

E as duas caem na gargalhada até perderem o fôlego.


Para compensar o tempo que demorei entre o capítulo 1 e o 2 já vou postar o 3. Faz parte da idéia publicar semanalmente, vamos ver se eu consigo. A blognovela além de vir de um certo vício em storytelling é parte de uma experiência psicológica no âmbito de se terminar o que começa…

…o que também vamos ver se eu consigo rsrsrsrs.


Quem Pilota?

Durante os verões fomos avassaladores
Sem medo e sem tédio
Estação de dias longos
E noites intermináveis
 
Onde o calor da própria pele
Migrava pelos corpos nas madrugadas
 
Como radicais livres
Estas reflexões veraneias de minhas personalidades
Verdadeiras reatoras sentimentais
Se encontravam na própria ausência de qualquer busca
 
Às brumas dos outonos
Minhas pálbebras ganhavam o mesmo caimento das tardes
Firmando um olhar analítico sério
Esfriando o julgamento na ascenção de uma nova razão

A brisa leve que sopra serena
Amiga disfarçada com intenção sorrateira

Como um velho urso
Tal sentimento ranzinza traça os limites de seu território
Neste invólucro inviolável do egoísmo
Hiberna qualquer calor para mais tarde

Na demência do inverno
Sinto o sabor que tem o líquen no fundo do poço seco
Sou arena e espectador na luta mortal das minhas personalidades
Sou eu que corto, sou cortado, sangro e vejo sangrar
Sou eu quem também perde…
…sempre

Passado todo este longo inferno astral
Deixo as primaveras para o sonho
Muitas vezes embuído em trabalho
Dependendo obviamente da personalidade vitoriosa

E quando tudo parece calmo

Me lanço avassalador à outro verão


Blognovela Capítulo 2 – Marcus e Doña Adalina

Ela fumava um Alonso Menendez Robusto de capa escura, mas não tinha paladar para distingui-lo do Cohiba Esplendido que apagara há algum tempo e Marcus sabia bem disso. Sacudia o charuto pelo ar com seu gestual enérgico contando suas proezas corporativas enquanto a bela mulher com a qual estava saindo rodava o gelo do uísque com o mindinho e projetava o olhar ao éter. Todo o malte daquele Bourbon avermelhado de barril único aguando de maneira trágica dava aperto no coração dele.

Ninguém estava prestando atenção àquele papo ególatra e cocainômano que a Sra. Adalina verborragizava e Marcus havia parado de contar quantas vezes ela teria usado a palavra “eu”. Definitivamente o decote da acompanhante de Adalina estava mais interesante. Seu contemplar foi quebrado com a chegada do gerente à mesa.

_Minha Senhora, a primeira vez eu fui educado porque a senhora não é deste país. – Disse ele num lindo e cantado sotaque nordestino – Mas rapaz! A senhora está me fazendo perder a paciência! – Completou.

Doña Adalina – como a chamavam – ou estava tão doida que não percebeu, ou simplesmente ignorou o pobre coitado do gerente que já deixava aparecer uma veia lhe saltando à testa. Notando a situação, seu amigo se levantou num gesto largo e estendeu a mão à Doña Adalina como se a cortejasse, sua opção sexual nunca a impediu de reconhecer um verdadeiro cavalheiro mesmo que muitas vezes lhe faltasse o decoro como agora.

_Doña Adalina, porque a senhora não vem comigo até a varanda? Pensei em acompanhá-la com o Cuesta Rey que trouxe da República Dominicana, mas estou achando o salão terrivelmente quente.

_Sim Marcus, como não? Sempre foste verdadeiramente um gentleman.

Caminharam para a varanda de modo que Marcus pudesse aliviar os outros clientes do bistrô dos charutos de Doña Adalina. Sentaram-se na mesa a céu aberto e o rapaz pediu ao garçom um conhaque.

_X.O.? Você é tão elegante Marcus, gostaria que minha filha encontrasse alguém como você um dia.

_E como vai Morgana?

_Solteira. – Diz Adalina com um sorriso quase diabólico no rosto – Separou ontem do marido, se é que algum dia pudemos chamar aqueles moleques de casados.

_Não fale assim Doña Adalina, Morgana e Matheus ficaram quase dez anos morando juntos.

_No vi fiesta, no vi padre ou sequer juiz… No vi netos, no vi casamento algum!

_Hoje em dia é melhor assim, imagina se tivesse tido isso tudo para que agora eles se separassem.

_Mas aí não separava! O problema com esta geración – arranhava a matrona com seu portunhol – é que é tudo muito fácil, casam-se, separam-se, mudam-se, no comprendo mas nada!

Marcus riu-se por dentro, aquele discurso conservador não era de fato condizente com o modo de vida excessivo daquela senhora.

_Me pareceu simpática a moça. – Ele comenta mudando de assunto enquanto o garçom flambava seu conhaque de um modo todo especial.

_É uma perdida! Está a me lembrar Morgana e me dar arrepios!

_É uma bela moça, uma pena não falar muito.

_Ela está emburrada comigo, tinha prometido que hoje faríamos algo a sós e para variar acabei fazendo negócios. Posso contar contigo então no que diz respeito ao evento?

_Sim Doña Adalina, farei a assessoria de imprensa para a senhora e com questão a divulgação de rua eu posso dar um jeito também.

_Excelente Marcus, qualquer dia desses podia passar lá em casa, Morgana deve ficar comigo uns tempos até se ajeitar.

_A senhora não toma jeito não é mesmo? Eu e sua filha somos amigos Doña Adalina.

_Amigos que já foram coloridos! – Ri a velha engasgando com o charuto.

_Vamos Doña Adalina, o pessoal da mesa já deve estar sentindo nossa falta.

_Mesmo porque quem é que vai pagar a conta com nós dois aqui, não é? – Debocha Adalina.

Marcus fez questão de pagar e saíram separados cada qual com seu respectivo assecla, Doña Adalina e sua namorada em tédio e Marcus e seu assistente que conversavam no carro.

_Não entendo Marcus, você disse que esse projeto era seu.

_E era, foi uma das minhas propostas quando trabalhava para a Adalina na produtora dela.

_Quer dizer que essa espanhola maluca roubou o seu projeto e ainda tem a cara de pau de te pedir para fazer assessoria de imprensa?!

_Isso e ainda quer me juntar com a filha dela! – Ri – …mas relaxa, era um projeto engavetado Fábio, ela o deve estar produzindo porque as coisas não andam bem e a idéia é boa. Provavelmente isso apareceu lá na produtora e ela nem procurou saber de quem era.

_E você não falou nada?

_Não.

_Por quê? – Pergunta o assistente indignado.

_Primeiro porque a execução disso não compete a classificação da nossa empresa, um projeto desses ia tomar mais tempo do que dar dinheiro e segundo porque ela me chamou para a parte que me cabia e isso já é bom. Não é inteligente bater de frente com figuras como a Doña Adalina que está há mais de vinte anos no mercado. É melhor a gente fingir que é amiguinho e colher os louros “colaterais”.

_Não sei, às vezes não consigo lidar com esse jeito vaselina que você leva as coisas.

_Esse jeito “vaselina” que eu levo as coisas é a manha do mercado Fábio. É o que paga o nosso confortável salário! – Conclui Marcus.

Ele sempre dizia as coisas com um sorriso no rosto, Marcus era o tipo de pessoa difícil de quebrar e mais difícil ainda de se colocar as mãos. O jovem diretor levava sua firma de soluções e marketing para batalhar com os figurões dentro e fora do estado com apenas um ano de funcionamento.

Neste momento o telefone de Marcus toca.

_Não vai atender? – Pergunta Fábio.

_Não. É o Lulu me chamando para a festinha que vai ter , parece que hoje a bartender vai cantar não sei aonde e eles vão fechar o bar mais cedo.

_Parece legal.

_Legal nada Fábio, o Lulu vai quebrar a gente com essa história de ficar dando mole para funcionário, não me entenda mal.

Fábio calou-se apesar de saber que o bar de Marcus e de Lulu só era um sucesso pela qualidade de atendimento daqueles funcionários e a liderança amorosa e democrática que Lulu exercia.


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