Arquivo do mês: maio 2011

Desculpe baby

Presta atenção,
como você também já estive,
o ciclo se repete mesmo na variação das personagens.

Às vezes tenho a nítida impressão
de que você só me quer ainda
para se convencer aos poucos
de que sou desnecessário.

Este teu amor
que quando te falta te sufoca
e quando te sobra te enjoa
parece outra coisa que conheço bem…

A voz macia de Mandel Turner
me lembra a Avenida Atlântica em férias,
infelizmente o desbotado pálido dos arranha-céus no centro paulista
faz com que a projeção mental que tento fazer
se torne mais sofrível que o próprio cenário.

O jeito é pular a faixa
entrar no denso universo glam-punk de Brian Molko
que estridentemente te reforça o sentimento de pura manhã
na medida em que as botas impõem o caminho sobre as fendas da calçada.

Na hora que separa a origem do destino
as reflexões me dilaceram os pensamentos mais estáveis.

Sabendo da mentira que é a certeza,
me revolto com sua arrogância.

Por mais que meu ego possua a própria órbita
e minha maneira cognitiva caótica confunda a maioria das pessoas,
jamais alguém pôde dizer que sou intolerante,
sequer cabeça-dura,
muito menos raso.

(me prometi não comentar a hipocrisia, mas ficou difícil – desta vez não foi a minha moral que faltou.)

O tempo me deu sabedoria
para não usar tais ataques como desculpa para uma reação,
mas isso só faz desta mais uma digestão difícil.

(Não preciso jurar para afirmar o que todos sabem melhor que eu – tento forte, todos os dias.)

Para a liquidação deste bolo alimentar denso é necessária a interrupção da ingestão…
…e nós todos sabemos o que isso significa!

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Blognovela Capítulo 4 – Mofo, cigarro, uísque e trip-hop

 – “Martina Topley-Bird murmura qualquer Massive Attack enquanto eu tento tirar…”

Seu etílico raciocínio é interrompido com o barulho da campanhia.

 – “Martina Topley-Bird murmura…”

O telefone toca.

– “Martina Topley…”

A campanhia volta a tocar.

– Mas que diabos, não consigo escrever em paz! – Grita Matheus sozinho na sala antes de atender o interfone – Quem é?!

Ele não teve escolha senão deixar seu melhor amigo entrar e abrir as cortinas.

– Credo Matheus! Há quanto tempo você está nessa fossa de mofo, cigarro, uísque e trip-hop? – Diz Guilherme desligando o som.

– Porra Gui, eu tava escutando!

– A única coisa que você vai escutar agora é o som da sua voz. – Diz o amigo altivo esticando um panfleto a Matheus.

Ele analisa a folha de papel e vê  do que se trata.

– É um festival, e daí?

– É um festival com prêmios para inúmeras artes e o terceiro lugar na categoria ‘composição’ já é suficiente para a gente começar uma carreira de verdade Tetê!

– Já te falei para não me chamar assim, esse apelido idiota que minha mãe me deu nunca colou!

– Deixa de ser imbecil, sua mulher te chama assim o tempo todo!

Houve um breve silêncio entre seus lábios tremularem e Guilherme perceber que Matheus não tinha mais uma mulher. Ao invés de chorar ele olhou um ponto fixo enquanto a mão alcançava o copo de uísque para mais um largo gole.

– Matheus desculpa, eu… – Se arrepende Guilherme.

– Deixa para lá Gui, eu é que preciso me acostumar, conta esse negócio do festival logo.

O amigo diz as categorias que a banda poderia concorrer e o valor das premiações que era suficientemente generoso para não dizer super faturado.

– Cadê o Felipe? Ele tinha que escutar isso também. – Pergunta Guilherme notando a ausência do verdadeiro dono da casa.

– Viajou com a namorada, volta semana que vem, isso veio em boa hora, ele terminou o mestrado e vai ter mais tempo para ensaiar.

– Isso é ótimo, pode ser como nos velhos tempos cara! Eu você e o Lipe fazendo som é a nossa chance de tentar de novo!

Matheus ri descrente.

– Calma, vamos pensar nisso direito, quer uma dose?

– Adoraria!

*

A ruazinha estreita na parte alta da cidade tem seu silêncio sepulcral de sábado à tarde rompido pelas crianças esganiçantes no churrasco-com-piscina/jogo-de-futebol no Lulu. Lá também estavam – nem tanto por acaso assim – Tiago e Carolina.

Luís tinha uma casa grande muito bem montada numa região com vista em uma vizinhança suspeita.

Ele e Carolina se cruzam enquanto ela vai à sauna e ele leva carne para os amigos.

– Nossa Lulu, todos os seus amigos já tem filhos? – Ri

– Menos eu – diz orgulhoso – e é por isso que a minha casa tem piscina e a deles não! – Debocha.

Ele continua seu caminho até a mesa de boteco que fica na beira da água, ali Tiago bebericava uma long neck.

– Você ouviu falar desse negócio do Marcus aí? – Pergunta Luís

– Não, qual negócio do Marcus?

– Um festival com bandas, grupos de teatro, dança, todas as belas artes, design, iluminação, tecnologia audiovisual para apresentações ao vivo, tem premiação pra tudo, vai ser gigantesco!

– E onde o Marcus vai enfiar isso tudo Lulu?

– Ele só está divulgando, quem realiza é a “Índigo” a produtora da Adalina. Parece que começou com uma idéia menor  mas o Marcus foi head-hunter e conhece um monte de figurão em empresas grandes dispostas a patrocinar. Ele fez a relação desses caras com a produtora da Adalina levando uma fatia considerável do bolo.

– Lulu, porque você não compra a parte do Marcus no bar? Ele não precisa daquilo mesmo… – Pergunta o amigo.

Eles nem viram que Carolina já estava de volta da sauna e de olho na conversa. Ela tira a long neck da mão de Tiago e dá um gole.

– E aí Lulu? Esse festival da Índigo tem premiação?

– Um monte Carol, entra na internet depois e veja, eles estão incentivando os trabalhos autorais, parece que a maior premiação de música vai ser melhor composição.

– Quanto?

– O suficiente para comprar a parte do Marcus no Pub e ainda sobra. – Diz Lulu com um sorriso malicioso.

Carolina retribui.

– Luís seu velho safado, o que eu não faço por você? Pode anotar, se eu ganhar melhor composição eu compro a parte do Marcus e viro sua sócia!

– Você está falando sério, menina? Eu vou te cobrar isso depois.

– Eu sempre falo sério! – exclama Carolina cuspindo na mão e a esticando para um cumprimento molhado prontamente correspondido por Luís. Tiago se vê nauseado com o infantil pacto de cuspe que testemunhara.

*

Fábio e Marcus estão num avião voltando de uma reunião em São Paulo.

– Eu ainda não entendi como você conseguiu premiações tal altas. – Ri Fábio.

– É simples, a gente vai ter mais de cento e cinquenta grupos artísticos se apresentando de graça, vamos pagar cachê para as maiores atrações que serão quantas?

– Vinte e sete. – Diz o assistente.

– Exato. Esses vinte e sete serão os responsáveis por fazer centenas de milhares de pessoas pagarem um preço considerável num ingresso que cobrará por todos os artistas e grupos que receberão ou não para ali estar. No final das contas o valor gasto com as premiações é praticamente irrisório.

– E se os ingressos não venderem?

– A gente foi fazer o que em São Paulo Fábio? Os patrocinadores vão garantir que eu e você enchamos os nossos bolsos de dinheiro. Dane-se se não estou realizando o projeto que era meu, estar desse lado das coisas é muito melhor! – Reflete Marcus satisfeito com sua participação no próprio projeto roubado.

– Na verdade Marcus, a gente tem que lembrar que a divulgação é nossa também, ou seja, pelo outro serviço ainda temos responsabilidade pela venda dos ingressos.

– Claro, pode ficar tranqüilo, as atrações que fechamos serão o suficiente para lotar aquele lugar durante os três dias, mas algo me diz que este é nosso último trabalho divulgando, daqui para frente quero atuar mais nessa de captação.

– Olha que ganância é pecado! – Ri Fábio.

– Quando eu chegar no inferno eu compro um ar-condicionado! – Gargalha Marcus.

*

Não era bem medo, a insegurança que ele sentia podia ser um simples reflexo do álcool. A visita de Guilherme o tinha feito bem pelos próximos minutos que passaram após despedirem-se, mas a avalanche de incertezas imersa na verdadeira nuvem de baixa estima, lançava Matheus numa ego-trip oscilante variando em picos de euforia megalomaníaca e crises de baixa de testosterona. Tudo em um espaço de tempo muito pequeno para a quantidade de reflexões

Ele se levanta da cama com olhos cheios d´água, não ameaçava choro real. Suas lágrimas contidas nas pálpebras inchadas eram apenas o “ladrão” da transbordante caixa de mágoas que seu coração dragava como uma locomotiva, carregando vagões de pedras com rodas quadradas em trilhos irregulares.

O mais assustador era que seu sentimento dramático não possuía outro motivo senão a própria redundância, sua auto-piedade era retro-alimentada por uma dor fantasiosa originada no temor absurdo de não mais senti-la. Masoquista ou maníaco-depressivo, a classificação não mudava o fato de que a ilusão e seu impacto destrutivo são absolutamente reais para o iludido. Matheus aperta novamente o “play” em sua fossa de mofo, cigarro, uísque e trip-hop.

 – “Martina Topley-Bird murmura qualquer Massive Attack enquanto eu tento tirar esses fragmentos de metal pesado dos pulmões. Quando tudo parece abrir e clarear, quando a calma atinge minha razão os sentimentos tomam selvagens as rédeas da situação, eles não devem permitir a conformidade ou mesmo qualquer sinal de paz a esta alma artista desmerecida.”

*

– No começo eu achava romântico, me identificava, tinha gosto em escutá-lo falando de si e suas idéias malucas durante horas e horas. – ela roda o olhar cansado pela praça e dá um trago sonoro no cigarro de filtro vermelho. – Naquela época ele tinha uma coisa no fundo do olho que eu não sabia o que era e toda aquela situação dava pane em meus hormônios, mas devo dizer que de perto não fazia o meu tipo.

Eu brincava que ele tinha me enganado, sabe… – Ela abaixa os óculos escuros e ajeita a saia para sentar-se no meio-fio enquanto a amiga amarra o tênis – eu conheci ele num show, todo produzido cantando rock e solando na guitarra! Vi que na verdade ele tava mais para um bicho-grilo com um violão em volta de uma fogueira.

– Hum, quer dizer que Matheus era Camaleidiota… faz sentido.

– Camaleidoquê?! – Pergunta Morgana absurdada com a alcunha inventada pela amiga enquanto esta ajeita os óculos e pigarreia para explicar;

– Um Camaleiditota ou Camalególatra, dependendo da naturalidade do espécime masculino – impreterivelmente – é um bicho de olho esbugalhado e língua grande, traíra para cacete, totalmente sem personalidade e mais borderline que a Madonna. Pertence a uma classe exótica de parasitas da ordem dos passivus-agressivus que costuma seduzir mulheres de sanidade duvidosa as  encantando com sua mudança de cor que simula o efeito do LSD.

Touché! – Responde Morgana.


Bordejando

O último cigarro nunca é ponto só
vem sempre acompanhado de mais outros dois em sua seqüência

O fim é palavra composta incompleta antes do hífen
Não há nunca um final sem o acompanhamento espetaculoso de um novo início

E é por isso que vai o viajante
Não pela história/estória ter acabado
mas para que ela tenha curvas e emoções
que justifiquem sua classificação

Adeus penoso e doloroso não tivemos
ao contrário, com tudo irritantemente claro
Tão claro que pouco houve subjetivo
e talvez por isso – volátil

Não há remorso no que se quis muito
Há apenas desfecho inesperado
que pode e sempre virá a ser tempero

O sal e a pimenta das madrugadas
O prato feito para um viajante
A própria estória/história

Por isso não ficar
Por isso não prender
Desatrelar, desatar, desapegar, desengatar

Desgarrar-se da deturpação dos sentimentos
Abraçar a possibilidade de sentir novamente
O quanto significativo fôr a capacidade de não mais atribuir significados

A felicidade é prêmio do acaso
e viajantes não carregam o privilégio das certezas
Só é possível sorrir por estar em pé
e chamar isso de sentir-se bem

Sabemos dos tons mutantes na intuição
que geram a nuance doce e azeda relacional
Falo das cores dos sentimentos
e seu inevitável desbotar e tingir

As velas infladas desta nau senil
Que mais uma vez persegue o horizonte
Tem a coragem de desconhecer o nunca mais
e a força para tornar qualquer lembrança macia


(sem estampa)

Ânsia
O maço esvazia mais rápido
A jaqueta ocupa o cabideiro
O outono chegou definitivo

Parece me faltar vitamina
O álcool subiu mais depressa
E pariu uma manhã mareada
Que estendeu-se pela homicida luz vespertina

Minha humilde e solitária garrafa de vinho na sexta a noite se tornava a ressaca pesada e inesperada do sábado a tarde

(não) olhando a volta
Julguei que minha nova fraqueza diante de tão conhecido entorpecente haveria de ser fome
ou qualquer outro tipo de despreparo plausível

Mas ao desenrolar do domingo
Entendi de verdade

era só solidão


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