Arquivo do mês: julho 2011

Blognovela capítulo 5 – O Retorno à Casa do Vale

_Ela tinha um sorriso curto em semi-colcheia e o que eles chamam na gringa de “giggled laugh”; a risadinha no tom safado que as meninas dão. Já escrevi uma vez sobre os incisivos laterais retraídos que se insinuavam aos centrais e se a época batesse, diria que Machado de Assis desenvolveu o termo: “olhos de ressaca” para ela. Atrás daqueles olhos malucos parecia que sua cabeça cantava “All Mine” em altos brados. Ela dizia que só eu via essas coisas.

Felipe escuta sério apesar de parecer mais concentrado na fumaça que saía de seu cigarro do que no monólogo do amigo. Matheus continua o discurso com um sorriso que parecia sangrar.

_Ela falava francês, nunca entendi nada, mas era bonito. Uma vez disse algo na cama depois do sexo, não consigo me lembrar o que era.

_ “Votre petite mort est ma vraie– Diz Felipe antes de se levantar claramente incomodado rumo ao deck externo a casa.

_Isso mesmo! Espera aí Lipe, onde você vai?!

Guilherme que observava tudo enquanto abria a garrafa de vinho olha em reprovação para Matheus.

_Eu sabia que essa história toda ia dar merda! – Diz  ele antes de seguir Felipe para o lado de fora.

O outono havia acabado e os três tiraram o fim-de-semana para ensaiar na casa de campo da família de Felipe que, com a separação de seus pais, havia ficado vazia até que os papéis do divórcio estivessem prontos. Era um lindo chalé de dois quartos, a madeira escura se estendia na forma de um largo deck caindo no infinito do vale profundo. De lá era possível ver as copas mais altas esticadas para fora das brumas enquanto se escutava as leves quedas do rio até atrás do morro. O que uma vez fora o conto de fadas de um casal apaixonado havia se tornado refúgio da banda de rock ´n roll desde os primórdios de sua amizade.

*

Doña Adalina tinha viajado deixando sua luxuosa residência e sua empregada –

Iraci – aos cuidados da filha. Esta começava a curtir a idéia de estar na casa da mãe novamente.

_Ninha? Sou eu… – Diz a Senhora na porta do banheiro.

_Pode entrar Iraci.

_Vou deixar sua toalha aqui atrás viu? Passei a blusa que você pediu, está em cima da cama e tem uma amiga sua aí embaixo, deixa entrar?

_É a Isabela?

_Acho que é isso mesmo.

_Deixa entrar, pede para esperar que eu tô terminando o banho.

_Tá bom. – Diz a fiel Iraci.

Ela trabalhava para Doña Adalina desde a infância de Morgana e as duas eram muito próximas. Por diversas vezes uma acobertara a outra para se protegerem da ira da espanhola.

Quando Morgana era adolescente Iraci prometia não delatar suas festinhas e em troca ganhava uns dias a mais de folga quando Adalina viajava.

Ela sai do banheiro de roupão secando os cabelos e dá de cara com a roupa lavada, passada e cheirosa em cima da cama, não se dera ao trabalho nem de separá-la.

_Quando minha mãe viaja essa casa é o melhor lugar do mundo! – Sorri Morgana satisfeita.

Ela veste a roupa e vai receber a amiga.

_ “Morgs”! Quanto tempo vadia, você sumiu!

_Você que sumiu sua vaca, nos abandonou por todos aqueles nórdicos maravilhosos, ai ai!

_Mas eu voltei já tem um tempo, quase seis meses.

_Eu sei, quero ouvir tudo, vamos tomar uma lá fora? O tempo está do jeito que eu gosto; frio e ensolarado.

As duas se instalam na mesa do quintal que tem um grande cinzeiro para charutos no meio, uma salmoura já aguarda a garrafa de espumante que Morgana traz da geladeira. Iraci vinha atrás com as taças.

_Tinha esquecido como a velha vive bem, todos estes anos de “proletariado” me ensinaram muita coisa, mas devo confessar que sinto falta de certas regalias.

_A vida de vocês dois juntos não foi fácil não é amiga?

_Nem me fala, a gente fez tudo muito rápido, na verdade não tínhamos idéia direito do tanto que era difícil começar uma vida a dois sem estruturar as próprias antes. E agora com essa volta sua ao Brasil? Você e o Felipe levam essa história há quanto tempo?

_Ah, sei lá, entre idas e vindas? A gente tinha um casinho na adolescência quando eu tinha quatorze e ele dezesseis, nada sério. Só fomos namorar mesmo a cinco anos atrás, dos quais dois eu fiquei na Suécia.

_E agora que você voltou, vai casar?

_Não sei Morgs, para te falar a verdade, minha cabeça mudou muito lá, a gente tinha terminado né? Esse negócio de namorar através do Atlântico não tem jeito de dar certo. Quando voltei estava morrendo de saudades e desde então estamos super grudados, mas…

_Mas…?

_Eu acho que é mais um colo seguro e amistoso do que realmente um grande amor sabe?

_Ih minha filha, esse negócio de grande amor só dá confusão, eu se fosse você se adaptava ao colo amistoso. É o que qualquer grande amor vai virar no final das contas mesmo! Mas cadê o Felipe? Tem tempos que não o vejo.

_Foi pra Casa do Vale com a banda, disse que vai ficar o final de semana.

Por dez segundos Morgana não engole o espumante da boca.

_A tal Casa do Vale?! Achei que ninguém ia lá desde…

_Também assustei. De certa maneira Morgs, aquela casa tá semi-abandonada há anos e agora com essa história da separação dos pais do Lipe e “quem-fica-com-o-quê”, alguém tem que ir lá de vez em quando.

_O Matheus foi também? – Pergunta Morgana preocupada.

_Eu disse “a banda” não disse?

_Meu Deus, ele deve estar mesmo ruim das idéias para topar voltar naquele lugar.

_Fiquei mais impressionada com o Matheus lá do que com o próprio Felipe. – Confessa Isabela.

_Eu nunca entendi direito essa história e a relação do Matheus e do Felipe depois disso sabia? A gente já até conversou uma vez lembra?

_Eu conheço eles há mais tempo e mesmo assim nunca toquei no assunto direito, acho que não consigo…

_Você conhecia ela…

_Sim, conhecia.

*

_Esse lugar é maravilhoso, lembra aquela sua festa que a gente envenenou a gelatina com vodka? – Pergunta Matheus.

_Eu fazia quatorze anos não era? – Lembra Felipe.

_Isso, aquela festa foi ótima, terminou sete da manhã com todo mundo na cachoeira.

Há um hiato e os dois fixados nos desenhos que o vento fazia na neblina, escutam o barulho do rio e das matas até Felipe quebrar o silêncio.

_Era boa aquela época em que festas desse porte não terminavam na polícia ou no hospital.

Matheus esmorece e aperta o olhar para o vale como se o frio tivesse aumentado, Felipe sério acende um cigarro e dá meia volta em direção ao chalé

_Vamos logo, não quero dar tempo para o Guilherme abrir um vinho errado. – Diz seco.

*

Carol passava o pano no balcão enquanto Luís enchia o freezer ao lado. Notando o olhar baixo da garota ele se estica oferecendo uma cerveja gelada.

_Quer? Não precisa anotar, foi uma longa noite! – Diz o patrão

_Obrigada Lulu, foi mesmo uma noite pesada, mas vou ter que recusar, meu estômago não está bem.

Luís então abre a garrafa para si e dá um gole.

_Posso perguntar o que você tem? Parece abatida.

_Não sei, acordei de manhã com o Thiago me ligando.

_Ué, vocês estão namorando? – Ri Luís.

_Visto o programa “ótimo” que ele me chamou para fazer, acho que sim. – Diz sarcástica e descontente.

_O que fizeram?

_Fomos no cemitério levar flores para a irmã dele que morreu.

Luís desfez o sorriso.

_É mesmo, tinha me esquecido dessa história.

_Foi aniversário de morte dela, acho que fui apanhada pelo clima pesado, mãe chorando, aquelas coisas. Depois fiquei puta com ele.

_Ôh Carol, ele devia estar precisando de um suporte.

_Pô Lulu, não se pede um suporte desse tipo para a menina que você está ‘pegando’ há alguns dias. Fiquei super deslocada e constrangida.

_Porque você foi então? – Pergunta Luís de sobrancelha erguida.

_Não sei, achei que seria cruel recusar, depois percebi que era muito mais cruel fazer esse tipo de convite.

_Quanto tempo tem que a irmã dele morreu mesmo? – Pergunta Luís tentando distrair Carolina do desânimo com a carência indelicada de Thiago.

_Sei lá, vários anos!

*

_Porra Felipe tem doze anos já! Será que algum dia você vai me perdoar pela merda que eu não fiz?!

_Eu te amo Matheus, contente-se com isso.

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Protesto

Ok,
Brinquei de ser humano
Senti suas dores todas
Seus gêneros, números e toda a graduação

Acordei de manhã
Tomei remédio pra me aceitar
Frequentei festas pra me mostrar
Bebi para esquecer

Cantei minha pateticidade toda
Cambalhotei minha patetice
E maquiei meu próprio palhaço

Chega!

Eu tô completamente de saco cheio de me privar da loucura em prol da diurnidade reacionária da babaquice vigente!

Fica aqui

Um epitáfio boludo…


Mentira Sunrise

A falta de medo
O tamanho do tombo
O corte da faca
E todo o resto daquela miséria

A tua, a minha e a vaidade deles

Adiantou para este rombo
Apressou demais o roubo
E foram incríveis os fogos de artifício
Na química brusca deste despertar

Cínica busca do entorpecer

Me dêem as frutas
Me dêem os licores
E façam de mim
O melhor que pode ser feito de um liquidificador

Batida de minhas lamúrias
Sigo coquetel das frustrações

Amando
Amando
Amando

Lambendo

Todas as limitações

Já que não há mais nada para adorar


Verborragia

Se fui generoso
Nada foi além de obrigação
Misturada em boa dose de afeto
Se fui cruel
Nada foi além de confusão interna
Misturada a ódio aleatório
Se fui maluco
Nada foi além de curiosidade
E pré-disposição a desafios
Se fui amoroso
Nada foi além de carência
E ternura vasta desvetorizada

Só sei que tudo fui
E sei que não concluo nunca o que sou

Se fui violento
Nada foi além de conclusões agudas
E uma maneira eficaz de me proteger de mim mesmo
Se fui altivo
Nada houve além de sobriedade
E confiança cega no pão que vem do trigo
Se fui promíscuo
Nada houve além de diversão barata
Remédio fácil para crise burguesa
Se fui um ídolo
Nada houve a não ser a incapacidade de explodir
A força em doar aquilo que me sobrava
Se fui o inimigo
Nada fui além de um grande pé no saco
Vindo de uma vaidade entediada

Só sei que não tentei o suficiente ao concluir
Isso poderia me matar

Se fui escória
Era só para sentir a partir de outro paradigma
Deleuze nos alertou sobre experimentalistas e suas conclusões. Mas o que um reacionário sabe além das próprias experiências?

Espero que tenha servido para alguma coisa
Ou no mínimo servido alguém

No mais,

Continuo amando todos vocês

E atualmente, até os que não se amam


Empresinha Mimada

Anti-servil, não sirvo nem presto serviço
Sempre achei o contrário
Em meus desempenhos noturnos anteriores

Mas ao que parece
ao menos para o mundo corporativo

Meu torque que era poderoso
é muito lento
Minha capacidade de abstração antes bela
é contraproducente
Minha produção criativa
desafia a lógica

E o que era harmonioso
não se torna dinâmico de maneira alguma
Não neste contexto

Não lamento, não há auto-piedade, pelo contrário;
me lanço de braços abertos ao desafio
Aprendo a língua do planeta estranho
Transformo o povo hostil em melhores amigos
Uso de toda a ratazanagem hereditária
para arrancar-lhes algo além de falsa simpatia

Mas são demônios bem treinados
Avessos a motivação por elogio
E quanto mais desesperado
Maior o convite ao banquete no próprio odor do pânico

E eles fazem a promessa mentirosa de sempre
Que vislumbra o nunca mais e o fim do amor
Eu que já tinha fome, agora sinto frio
Valeria a pena?

Será que conseguirão me fazer ter medo de verdade nessa vida?

Duvido muito
Para quem viu as entranhas de um sádico mundo real
O corporativismo lembra brincadeiras infantis em casinhas de boneca
E por isso nos tornamos absolutamente incompatíveis

Em todos os momentos em que não levo dinheiro à sério
Em todos os momentos em que coloco os interesses do ser humano em primeiro lugar
Em todos os momentos em que eles tentam me descer um discursinho motivacional enlatado
que menospreza minha inteligência
Em todos os momentos que eles deturpam conceitos
em favor do próprio lucro

Uma empresa é a mais cruel criança de sete anos


Dois Contra Um

(Danger Mouse / Danielle Luppi)

Ft.: Jack White

Não se engane, não faço nada de graça
Mantenho meus inimigos mais perto que o espelho jamais chegará a mim
E se você acha que há abrigo em tal atitude
Espere até você sentir o calor da minha gratidão

Um…
Tenho a impressão de que são dois contra um
Se já luto comigo mesmo o que custa mais um?

O espelho é o gatilho e sua boca uma arma

Ainda bem que não sou o único

E parece que vejo você e seu reflexo
Planejando adicionar a própria luta a esta dimensão
Conta pra ele que isso não é gratuito para que todos vejam
Há apenas três!
É só eu e você contra eu mesmo

Um…
Tenho a impressão de que são dois contra um
Se já luto comigo mesmo o que custa mais um?

O espelho é o gatilho e sua boca uma arma

Ainda bem que não sou o único

E se sua infantaria, seus baba-ovos e positivistas
Planejarem estragar o meu planinho
Deveriam então prever a minha rebeldia em dizer que não estou brincando
Mas foda-se,
Já pensei em um plano para afogá-los

Um…
Tenho a impressão de que são dois contra um
Se já luto comigo mesmo o que custa mais um?

O espelho é o gatilho e sua boca uma arma

Ainda bem que não sou o único

*******

A tradução foi extremamente difícil não só por ser uma letra que entra nas minhas entranhas como por depender mais das minhas orelhas que realmente das letras ‘originais’ disponíveis na internet. Levem em conta a liberdade artística e a falta de capacidade do tradutor de se ver livre de tais conflitos.


Órfã de Musical

Eu não devia
Me expor a sua vaidade como obrigo as outras a fazer à minha
Mas talvez eu possa
Na dose diária do veneno que quer ser nossa auto-estima
Mas é que me conquista
O arquitetado de arestas brancas da tua roupa no retrato
A quina da mão e o apontado do cigarro
O esquisito do fino bico do sapato
O insandecido do fundo do sorriso mais safo
A grama o chão e a terra do jeito mais avoado
Ah como eu queria
As quinas que hoje me adornam
Esquinas que me exorcisam
Sabem muito bem o que formam
Lembram muito bem do que viram

Saudades

Sempre


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