Arquivo do mês: outubro 2011

Transcenda ou exploda

“O prazer é divino, a dor é infernal,
o ricocheteio constante entre essas duas condições é normal…”

“Transcending flesh could be a breeze
Sending me over the moon”

A montanha russa de se estar vivo
Algo como eterna adolescência
Para aqueles de alma enorme
Tão grande quanto um transatlântico
Que invade o pier destruindo toda a zona portuária

A verdade é que os românticos são um ingênuo e tenebroso desastre

Os românticos muito se apaixonam
Muito amam
pouco enxergam

Uma alma enorme traz em si enormes calos
e a crueldade de um sanguinário guerreiro alucinado pelas batalhas

“O prazer é divino, a dor infernal…”

E o resto

é só normal…

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A segunda voz que canta em outro tom
dançando com a primeira

Displicente

Indisciplinada

ou simplesmente inocente, ingênua

Ingenuidade minha pensar assim, diria que houve descuido

(não há descuido em peça bem arranjada)

Descuido é a palavra, mas não faz mal
Não deveria mesmo sair por aí colocando minhas próprias claves nas pautas dos outros

Mas o faço mesmo assim

Fuga y Allegro?

Diria fuga em allegro, uma maneira arlequina de se entender nuances

As vozes flertam em diferentes tons

mas pertencem a mesma composição

e assim a fuga é incapaz de fugir da canção
e a canção se torna maestra do sentimento
que em simbiose deste é incapaz de escapar

Os clássicos muito faziam para contradizer esta afirmação
e davam muitos nomes às diversas partes, mas a obra…

Lá estava a canção, que nós populares tanto admiramos
e vemos como uma coisa só

Portanto fuja em três,
seis vozes

Fuja do Rei Frederico alegando cansaço da viagem, senilidade ou o que quer que seja

A canção comporta qualquer atitude,
o improviso petulante do maestro, sua pauta/resposta covarde

e brilhante

Não sei se fiquei triste
ou se já esperava

no entanto,

a idéia de se viver uma canção duas vezes é incompreensível pra mim

Aquele mesmo Fender Rhodes, que tanto me inspirou
Que hoje procuro e copio, por causa daquela canção

Lá estava, adotado por uma nova sorte

É mais ciúme da canção que de ti
Disso tenho certeza

Enfim…

…a canção sempre foi tua mesmo

Me cabe buscar novas canções
sem atribuí-las histórias diferentes

Como sempre fiz

Talvez seja uma deficiência minha
Ou um arquivo abstrato

Mas simplesmente não consigo

Sentir duas coisas

com os mesmos acordes
na mesma timbragem

Felizes são os que seguem adiante
e não sentem o assombro das harmonias marcantes

do mesmo jeito

com o mesmo cheiro

e sabor intacto

todas as vezes que escuta

Agora me diga você

Por quê?


Contraste

Da colina verdejante, à beira do lago das Ninfas
comendo cada pomo da árvore das Hespérides

Apesar de manter uma certa distância da planície de Ares
posso vê-lo pelas pastagens à surrar teus cavalos

Estás à perder a ternura amigo

A magia

e tudo mais…

Me entristece saber que durante a guerra
Guerra esta que travou justo para proteger tuas nuances mais delicadas
acabaram por envelhecê-las

À beira da morte
tua arte clama por misericórdia
E me tira a concentração do sabor doce de minhas novas frutas


Coisas que não mudam

“É que a discrepância é grande, ela corre atrás do sol num campo de flores e eu…
Ora, eu vivo embaixo duma nuvem preta que chove como essa manhã lá fora.
Em inverno eterno.” (Diário – Setembro de 2002)


Da Carência

É engraçado,

a felicidade me completa
me compõe
e me limita

nesta vastidão
neste imenso e solitário
desamor

sangra o final do sorriso

como ganhar um brinquedo novo
junto a uma enorme afta

no assombro de pés que se enroscavam aos meus em noites de sono cúmplice

sinto falta do que não tive direito
sinto falta do que tenho
sinto falta do que abandonei

só queria outra colher para esta gaveta
mesmo que fosse por esta noite apenas


O Percurso

Na palma da mão
Na linha da vida

Há uma farpa

Que cruza a terceira esquina dos modos
Atravessa o maior edifício
E crava forte na praça principal

Há um resto de doce

Que impregna todo o parque
Colando crianças em sonhos
Melecando os casais nos bancos

Há uma mancha de cigarro

Escurecendo as noites de inverno
Acendendo as luminárias dos escritores
Deixando as ruas vazias para os pensadores da madrugada

Há uma cicatriz

Uma estrada de terra para o interior
Com uma moça solitária de vestido floral
e frutas deliciosamente baratas à venda

Há um desvio

Por todo o percurso


Ode ao Martírio Alheio

Os homens com mais de trinta e sua insustentável leveza
Os com menos que isso e toda sua arrogância exacerbada
As mulheres com mais de trinta e sua esperança frustrada
E as com menos que isso em plena psicose produtiva

Sou um homem bem resolvido
Sobre mim nada concluí
E assim será para sempre o gozar macio de minhas hipóteses e desenvolvimentos

Espero

Por todo o sempre

Falam dos meus paradigmas contraditórios
Todos estes bi-dimensionais

Nunca quis ser salvo, sempre precisei de colo
Felizes foram os que compreenderam antes de acompanhar
Ao menos para os quais pude durante estes curtos momentos

(ou mesmo para aqueles que abandonaram a nau antes do naufrágio das 7)

trazer qualquer tipo de felicidade

Comprimida
Embutida
ou mesmo lúdica

Entendo agora
Aceito agora
Relevo agora

Entenda-me hoje
me aceita quando
relevar o agora

Abraçado à fumaça restante da última chama de bom incômodo

amoroso

Narcotizo meu sono intranqüilo
em redimido suspiro
e sorriso infantil


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