Arquivo do mês: novembro 2011

Peixe Voador

O vento noroeste nos pegou de assalto
e a brisa constante e tranquila
anunciou nuvens e tormenta no horizonte

Não veremos estrelas esta noite, sei bem
e cada um nessa nau usa o próprio sonho de bússola

Uns sonham em retornar
outros com as correntes quentes tropicais

Alguns homens ouviram falar de uma tal América e fábulas de muito ouro mas eu…

…ando pescando peixes voadores

pois nunca me escondo de uma boa tempestade

Atravessamos o mar das sereias com fumo em nossos ouvidos,
seu canto nunca é real
e sonhos doces quase nunca são gentis como aparentam

A única certeza num novo rumo que se toma
é da emoção em trilhar o desconhecido

O que nunca impediu o sonhador de achar um lugar em si para ter paz

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Na Valsa

Havia me esquecido
completamente

do sorriso idiota no rosto que vem nos momentos mais inoportunos
dos movimentos leves na casa quando se vai fazer qualquer coisa comum
como se uma valsa tocasse em seus ouvidos à todo momento

das vontades insanas como torcer por uma chuva para que você possa correr berrando lá fora

dos olhos cheios d´água ao se lembrar do beijo

da procura incessante por traços quaisquer da pessoa,

como ver se a roupa que usou no dia ainda conserva o perfume dela

da inspiração plena para tocar e compôr um monte de coisa baranga

que você simplesmente não tem mais auto-crítica para não gostar

das horas ao telefone e o infinito assunto

dos curtos planos bobos

da ansiedade constante que te faz não dormir nem comer

dos “ai ai” a cada fotografia

é…

fudeu!


Queda Livre

Caminhava na garoa fina
lona de espera
paciência de caçador

Mas a articulação
vogais e consoantes
que melodiavam algo com o abrir e fechar de seus lábios

A seriedade do assunto
a ferramenta meticulosa
afrouxara os rebites
reduzira o predador a miséria de pedaços

e malditas (benditas?) borboletas!

Os joelhos fracos temem a pele
(algo letal)
A vertigem cria sonhos grandiosos
(que levantam em espiral)
ao meu redor

Tenho tanto medo
do medo que não sinto
Meu desapego
(sagrado, maciço, constante)
já não o alcanço mais

Me encontro na última telha do telhado mais alto

e adoraria cair…


Tango Noturno

Seus olhos pairavam sobre o invisível da mesa de jantar, escravos da enxurrada de pensamentos que lhe invadia e – mesmo que houvessem prometido nunca fornecerem provas contra si mesmos – era tarde. Sua aflição já era compartilhada de modo silencioso e discreto pelos demais que sabiam ou não dos motivos por trás da coleção de expressões que variava de acordo com a tonicidade de cada imagem refletida em seu cérebro neste momento caótico e perturbado.

Estava lá a paquiderme emocional sendo corroída por dentro já que nada atravessaria seu exterior e agora me dando o luxo de olhar de fora, não mais compartilhando de suas agonias, com apenas sugestões do que poderia estar se passando, não cobicei qualquer de seus momentos.
Mas a compaixão e a empatia me fizeram vibrar na mesma nota e daria um reinado para resolver teu problema com um estalar de dedos, como sempre – penso eu.
Logo me distraí num par de coloridas coxas e sabia que enquanto houvesse cerveja haveria folia para mim aqui, tão hiperciente em tais dias. Nesta cidade do silêncio mais ensurdecedor onde a criatividade dos estilos de vida transborda tanto em nossos copos vazios de sanidade.
Não demorou para que carregasse as coxas coloridas de seios gêmeos para nada mais que sua cama e tivesse ali qualquer coisa de libertador, tão confuso e ao mesmo tempo tão correto que fez qualquer culpa retrair e qualquer demônio em mim habitante silenciar em choque.
Donos de orgasmos cúmplices, transpiramos a leveza que os justos tem em baforadas de cigarros pelas avenidas vazias do domingo de madrugada.
Fiz uma anotação mental da placa do táxi e dei adeus aquelas cores que me deixaram só com as tais avenidas e meus próprios pensamentos de agonia ou não.
À moça dos olhos aflitos havia fornecido a oferenda – lembrei-me – faço votos que os três cigarros em sua mesa de cabeceira a salvem como sua cama me salvou nas cores desta noite.
Pensava assim enquanto pedia licença às ruas humildemente numa reza interna.
“Ruas que testemunharam tantas madrugadas minhas, deixai que seu filho retorne por suas passagens com a mesma segurança do passado e, por favor, não desviem meu caminho.”
Rezava para que ali a noite terminasse antes do dia, me deixando com as boas lembranças intactas, sem sujar um colorido sequer, pois apenas assim, com a cabeça em paz, poderia lhe transmitir boas vibrações.

Brindemos à paz de espírito, a minha, a sua e a de todos nós!

Por sabermos em nosso âmago da origem de todas as ironias,
por reconhecermos em nosso sentir o próprio alimento do monstro que nos tornamos,
por confiarmos cegamente que o caminho mais tortuoso é o que mais nos satisfaz,
por eufemizarmos abismos em romantismo púbere,
por termos esse imenso amor dilacerante pelas nossas cruzes inventadas,
por sermos avatares de nossa própria fome

Pela pretensão de um dia possuirmos o manual da vida.


Blognovela Capítulo 7 – Eva e a Maçã

Uma voz feminina carregada de ódio e abafada pelas paredes e porta desperta Matheus às cinco e pouco da tarde do domingo. Sem entender muita coisa ele repara que dormiu acompanhado e acordou sozinho. Seria ela a voz enfurecida na sala? Ele enfia um short e sai pela porta.

_Tá vendo? Você acordou o Matheus! – Exclama Felipe.
_Eu tô pouco me fudendo, sei bem que inocente nessa história ele não é! É bom que ele me escuta também, vocês dois – diz ela apontando firme alternadamente para os garotos – não são mais adolescentes porra!

É apenas Isabela e Felipe tendo uma discussão, ela provavelmente veio vê-lo e notou o estado que a casa estava após a festinha de manhã. Percebendo um prato com três canudos em cima da mesinha de centro Matheus conclui que a culpa é da cocaína, esfrega os olhos e volta para o seu quarto sem dizer uma palavra.

“Será que ela fugiu da Isabela?” – Pensa consigo rindo enquanto liga o computador. Ele agora faria uma pesquisa em busca de sua ruiva perdida, tudo o que ele sabia era que se chamava Carolina, era bartender, cantora e compositora e devia ter entre 20 e 25 anos de idade.

*

_Porra Carolina, tô te esperando desde uma e meia, são duas e quinze, daqui há pouco vou ficar bêbada e tô morrendo de fome cacete!
_Podia ter me esperado tomando um refri ao invés de encher a cara.
_Hum, que acidez hein amiga. – Diz Morgana entortando o rosto.
_Desculpa Morgs, tô numa puta ressaca, acordei e vim assim que pude, sei que atrasei pra caramba.

Morgana abaixa os óculos escuros e dá uma checada na amiga.

_Cheirou os cornos e acordou na casa de um estranho. – Conclui.
_Caralho Morgana, como você faz isso? – Pergunta Carolina surpresa.
_Seu nariz tá sujo, sua roupa amassada e tem um chupão no seu pescoço.
_Pode fumar aqui? – Desconversa Carolina enquanto limpa o nariz discretamente e procura o cigarro na bolsa.
_Porra Carolina, pára com essa merda, essa droga escrota só detona a sua vida!
_Ai Morgs, hoje não. – Diz Carolina ainda procurando o cigarro.

Morgana estica um maço e o isqueiro para a amiga.

_Toma, pode fumar aqui sim, peguei uma mesa na varanda não foi à toa. Tá vendo que droga escrota? Você ta aí num mau-humor dos diabos agora.
_Obrigada. Ai amiga, desculpa, mas ontem eu tava com o diabo no corpo.
_Pelo comentário esse chupão aí não é do gatinho que você já vinha pegando, como era mesmo o nome dele?
_Tiago, não é dele não… – Diz voltando os olhos para baixo.
_Mas foi bom pelo menos?
_Foi maravilhoso. – Diz sem notar o cintilar em seus próprios olhos, Morgana abre um sorriso largo.
_Hum, pelo que vejo o pobre do Tiago está para ter seu coraçãozinho trucidado.
_Você adora isso, não é ? Sua malvada!
_Malvada não garota. Realista! Esses homens românticos merecem isso, uma boa dose de realidade para ver se seus cérebros “artísticos” – fazendo as aspas com as mãos – pegam no tranco. O que você quer pedir?

Ela não perguntou o nome, o assunto parecia ter morrido, Carolina ainda pensava se contava ou não, se discutia isso ou não, se aproveitava o comentário do “cérebro artístico” para introduzir o assunto. Uma rápida reflexão sobre o gênio da amiga a fez com que respondesse:

_Uma coca-cola entupida de gelo e depois eu penso, se quiser pedir seu prato antes tudo bem por mim.
_Garçom, por favor. Uma coca-cola entupida de gelo para minha amiga “esborniada” e para mim o atum com penne ao molho de limão e meia garrafa desse seu viognier.
_Hum, rica! Faz o seguinte, cancela a coca-cola, traz pra gente uma garrafa inteira do viognier e uma água com gás cheia de gelo.
_Melhor remédio para ressaca, mantenha-se bêbada?
_Exatamente!

*

_A Bela é foda, tem um instinto materno muito forte e se preocupa excessivamente com quem gosta. A mãe dela é do tipo que deixa escovas de dentes lacradas na gaveta do banheiro caso alguma visita precise. – Diz Felipe recolhendo o lixo da sala após a saída raivosa de Isabela.
_Sei, daquelas do tipo que tem tudo separado para que as visitas não a contaminem. – Responde Matheus irônico enquanto ajuda o amigo.

Felipe reflete por um tempo e pondera entortando a cabeça.

_Pode ser. – Concorda.
_Ah velho, sei lá. A Bela sabe muito bem o jeito que a gente é e sempre foi. Você começou a namorar ela quando eu larguei a faculdade, isso tem quanto tempo?
_Uns cinco anos.
_Sério?! Que merda! Mas enfim, cinco anos e ela ainda não se conformou com sua vida.
_Isso é a sua vida Matheus. Eu só preciso de uma farra de vez em quando para desestressar.
_Sim senhor “fiz um mestrado e já posso ter um filho”. Casa com ela então se você é macho! – Ri o amigo.

Felipe ri também, tinha conhecimento que ele e Isabela se gostavam havia muito tempo, mas mesmo que tivesse resolvido sua vida profissional sabia que em outros aspectos nunca conquistaria a maturidade e/ou serenidade para assumir um compromisso que envolvesse uma família em algum momento, ao menos não por enquanto. Os dois continuam a conversa enquanto arrumam a casa.

_Posso te falar uma coisa cara? Gosto de ter você aqui, uma espécie de ombudsman pessoal. – Ri
_Nós sempre fomos lados diferentes da mesma moeda, opostos porém submissos ao mesmo sonho. Você foi mais inteligente porque resolveu ganhar dinheiro para bancar a loucura.
_E você resolveu ficar louco para ganhar dinheiro.
_Sim, mas você já ganha o tal do dinheiro!

Os dois riem bastante.

_Mas fala Matheus, e trampo?
_Cara, continuo discotecando nas quintas e sextas do Sniper e o Fábio me ligou ontem para falar de um trabalho aí, vou encontrar com ele amanhã.
_O Fábio não tá trabalhando com o Marcus?
_Marcus? Marcus Oliveira?
_É, soube que ele tinha virado assistente do Marcus na empresa dele.
_Porra, odeio aquele babaca!
_Eu sei. E se ele te pedir para trabalhar em algum job da empresa do Marcus?
_Se eu não tiver que tratar diretamente com Marcus tudo bem, pagando bem, que mal tem? Não é mesmo?
_Mas que eu saiba essa sua inimizade com o Marcus nunca foi algo aberto.
_Não, nós nunca brigamos, sempre mantivemos a elegância.
_A falsidade você quer dizer.
_Sim, ele era doido para comer a Morgana, almofadinha de merda!

Felipe suspira.

_E essa história hein Matheus?
_Qual história?
_Começa com “m” e termina com “organa”.
_”Organa”, é um novo jogo de RPG?
_Desembucha vai!

Matheus dá um nó no saco de lixo, o larga no chão e com as mãos na cintura e o rosto para teto solta o ar de modo pesaroso.

_O que você quer saber Lipe?
_É sério mesmo? Vocês sempre foram um puta casal.
_Ah Lipe, você sabe muito bem das merdas que rolaram.
_Vamos combinar que fidelidade nunca foi o forte de nenhum dos dois!
_Eu sei, a gente fazia vista grossa com umas coisas, contava outras mas…
…no final tava tudo muito pesado, a gente ia acabar se matando. Eu tava ficando doido.
_Ficando?!
_De outra maneira, não a loucura que sempre carreguei, era uma maluquice nova, arestada, agressiva…
_Mas o amor acabou?
_Amor não acaba Lipe, se transforma. Tenho certeza que a gente ainda vai se tornar amigo, só precisamos de férias um do outro.
Felipe sente pelo amigo, sua última frase era a confissão. Ele ainda parecia ter esperança.

*

A garrafa de viognier se transformara em duas rapidamente e Carolina que com o estômago embrulhado só tinha conseguido ingerir míseras três bruschettas de abobrinha andava bêbada às sete da noite pelas ruas no caminho de sua casa quando lê uma placa.
“Essa não é a rua do Matheus? Meu Deus, moro há vinte minutos à pé do garoto e nem percebi.”
Ela então devaneia pelas lembranças da manhã por alguns minutos, o jeito que ele a pegou pela cintura, a maneira de beijar tão parecida com a sua, seus olhos durante o orgasmo. No final da rua há um supermercado vinte quatro horas e se desviando da avenida que leva a sua casa Carolina segue.

*

_Com isso ela não briga não é?
_Maconha? Esqueceu que a Isabela fuma?

Matheus e Felipe fumam um baseado na sala escutando a trilha de Inglorious Basterds.

_Você e seu gosto por trilhas sonoras. – Comenta Felipe.
_Adoro! Sabia que tem Ennio Morricone nessa trilha?
_Só o Tarantino pra desenterrar o Ennio Morricone.
_Pára com isso, ele nunca foi enterrado!

Nesse momento o interfone toca.

_Tá esperando alguém? – Pergunta Matheus.
_Eu não, pode ser o síndico, apaga isso aí velho!

Matheus apaga o baseado correndo e vai buscar uns incensos, Felipe atende o interfone.
Enquanto o amigo acende mil incensos pela casa Felipe grita da área:

_Pode deixar Matheus, é visita pra você!

Matheus chega à sala a tempo de ver o enorme sorriso na cara de Felipe.

_Visita para mim? Quem é? – Pergunta enquanto acende o baseado novamente.

A campanhia toca e Felipe abre a porta, do outro lado está Carolina escorada no batente em uma pose sexy carregando uma garrafa de prosecco.

_Oi gatinho, lembrei que não peguei seu telefone.

Matheus deixa cair o baseado com a boca aberta e Felipe sai pela esquerda.


O Que Espero

Espero que ele seja bonito,
pois é o mínimo que se espera quando se olha para o seu rosto

Espero que ele seja gentil,
pois o máximo da minha gentileza é o mínimo que se pode esperar de um homem

Espero que ele seja agradável,
pois isso penso que nem sempre consegui ser

Espero que ele seja culto,
para que não passe vergonha ao seu lado

Espero que ele seja bem sucedido,
pois em alguns anos isso será importante

Espero que ele seja bem disposto
e não preciso dizer por quê

Espero que você seja feliz, sempre.


Da Esperança

Podem ficar com o para sempre real ou ilusório (se é que neste caso a distinção é possível)

Abraço apaixonadamente meu eterno agora


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