Arquivo do mês: janeiro 2012

Pixelado

Na película esperançosa
que parece ter arrumado o ângulo das retinas para o futuro
há qualquer artifício oculto
que redesenha a forma das imagens desaguadas
e como é sóbrio este real!

A perda, o amor, a malícia violentamente humana do “relacionário”

O instinto contra o fogo e a pedra
desenvolvendo a lógica da pólvora
se torna a fibra do tecido maduro
que envolve a mítica usada
na explicação interna da identidade

A fome, o gozo, a conquista nauseantemente plena do ser adulto

O vazio em erosão do abismo psíquico
esmagando a glândula criativa da musa
dá a luz à retas harmônicas e círculos suaves
recitando a arquitetura nova dos bons fluidos
que choram a ilusão perdida

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Andando em Seus Sapatos

Saí da casa de minha mãe com o rosto inchado e um ódio que degladiava com a dor no espaço entre o diafragma e a glote, tentei me conter na loja de bebidas ao comprar uma garrafa de Orloff.

A notícia que tinham trocado o rótulo me frustrou um pouco, tentava reencenar qualquer uma de nossas noites, mas já devia saber que elas nunca mais seriam as mesmas nesta cidade.

Tínhamos combinado qualquer coisa superficialmente durante o velório e cheguei a me surpreender com o número de pessoas que já estavam no velho posto de gasolina, com o gelo, a coca-cola e muitas outras garrafas de vodka, saquei do bolso o isqueiro que me deu ainda em vida quando me contou de sua mudança de hábitos e com ele acendi tantos cigarros de nossos amigos que a pedra acabou.

Meus pensamentos estavam nublados e o lugar sem sua presença parecia apenas mais uma parada suja no meio da cidade, com transeuntes desinteressantes que iam e vinham em busca de qualquer suprimento na madrugada, mas esta noite, fizemos questão de relembrar o espaço como ponto de encontro onde a qualquer momento o encontraríamos trazendo notícias da noite e das pessoas. Celebrávamos a transcendência do editor do Sistema de Informações Savassi, do promotor de momentos sublimes, do guardião do pólo que agregava os mini-universos da madrugada urbana, do padrinho de todos nós.

Sabíamos que pouco havia a celebrar na realidade, no entanto, ali estávamos imbuídos de qualquer força além da tristeza, para trocarmos sorrisos na ilusão de que algum deles soasse como o seu, mesmo sabendo que seria em vão.

Nenhum porre ou conversa mole iria preencher a sensação de vazio rasgado que havia se apoderado de nossos corações e mesmo assim bebíamos aos bons, aos montes, ao éter cruel que levara nosso grande sátiro, à esperança de manter nossas cabeças afiadas mesmo depois de tamanho impacto emocional, à idéia vaga de não sentir o ódio provindo de tal injustiça do acaso. Voltei com um sorriso no rosto que não tinha qualquer origem ou sequer condizia com meu interno espatifado, era puro álcool a preencher o tal vazio – naquele momento – para sempre em expansão, então refleti sobre as mudanças que você fez no final da jornada e quis mudar também.

Nos dias que seguiram sentimentos aleatórios me castigaram, pensamentos sem sentido entravam em conflito com o raciocínio lógico e ficava difícil compreender a mecânica do tempo, acho que é assim para todo mundo que perde alguém tão próximo, como se de uma hora para outra faltasse uma equação para o cálculo do próprio ser. Sentia frio e calor, dor e ódio em rompantes de lágrimas gargalhadas e sorrisos chorosos onde sua ausência vinha em ondas durante as horas despertas do dia e da noite.

Herdei de ti um par de tênis e nele pus-me a roletar pelo velho bairro, como se dessa maneira pudesse fazer com que você andasse mais uma vez ao meu lado por aquelas ruas e peguei todos os caminhos mais longos, levando uma hora do Sion à Savassi. Naquele nosso horário sereno entre as duas e as três da manhã, chorei ao som de Faith No More nos fones, para o asfalto que suas solas já chamam pelo nome.

Andando em teus sapatos vou deixando a dor me abandonar, pois penso sempre foste avesso ao sofrimento.

In Memoriam:

Pedro (Muzzy) Felício Cavalcanti (1983-2012)


Correndo na navalha

As virtudes que aprendemos nos desenhos animados
Caem por terra ao primeiro sinal de emergência do instinto de sobrevivência
No mundo real, onde os cigarros sempre acabam e o álcool nunca é suficiente
A trôpega sombra da humanidade se apóia em momentos de entrenimento obscuro
Logo se aprende a “beleza” da mentira, e a “segurança” da manipulação

“…é que você fica tão bonita chorando.”

O relacionamento humano é mais pesado que a sugestão de todas as nossas imagens
cultuamos nossa própria destruição e de uma maneira bizarra
isso é o que mais nos aproxima de nossa natureza humana

Há psicopatas que são presos e psicopatas que gostam de poesia

Não devemos tê-lo, apenas respeitá-lo

O medo


Rumo

Me lembro quando eram outros lábios em quadris que teoricamente me seriam reservados

Lembro do ciúme e todos seus sentimentos irmãos e selvagens

mas estes cigarros que fumo compulsivo, devem mesmo saber

que o vazio solitário é velho amigo e sua tampa deixa coordenadas sempre que se perde

 

E queremos mais

 

Interatividade

Acessibilidade

Mobilidade

Portabilidade

 

O amor se torna também um aplicativo


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