Arquivo do mês: abril 2012

flor da pele

Deslocado em tempo e espaço
desperto sem abraços num suor frio
característico de dias nublados
nos quais uso mais cobertas do que deveria

Na tentativa frustrada de simular calor humano
não quero e nem devo continuar sozinho
não preciso

A espera gera dias mais longos
noites de trabalho intermináveis
e madrugadas solitárias entre filmes e livros
histórias que cada vez mais de nada servem

Na esperança cega em ocupar o tempo
só faço o que devo para ter paciência
apenas o que é preciso

As quinas da maturidade servem de algo afinal
bem como o esforço zen e mágico para se lidar com as horas
o modo macio com o qual se move a alma torturada
é por si só um bom sinal

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Das nuances

Bene ou male

fícios

não ligo

não há suplício em entrega verdadeira
ou dor em fome saciada

Há sempre braço para fraqueza fictícia

Nossas criaturas de colo
aninham-se ao som reconfortante
de nossas harpas internas
mas sempre arrepiam em reação
às harpias ilusórias

movimento caótico em micro
harmônico em macro
como toda relação que se diz humana

Te verei sempre
dentro dos olhos que escolher usar


Fome 16

Cheguei à sentir o gosto daquele Rosé de Malbec 2007
Boa safra, apesar de ser quase irrelevante em tal processo enologístico

enquanto dava passadas largas pelas ruas da boemia burguesa paulistana
com minhas calças rasgadas de dez anos atrás
e meus fones ultra-modernos
me via

muro/lugar-comum

lixo/luxo

logo eu que fumava um Shelton
apenas três e cinquenta

sonhava vinhos
de cinquenta e três

os quais para piorar a auto-análise

conhecia bem

preço a se pagar quando se curte fazer curva na chuva

Mas tudo bem,

por isso mesmo aprendi a escolher bons vinhos de vinte
cozinhar com dezoito, pratos de cinquenta

amar aos quase trinta
com fome dezesseis


Caixa Preta

Espreita pelo aperto
do menor espaço possível
entre o choque de duas massas
sentimentalmente amorfas
e de mesma densidade

igual e contrário
oirartnoc e laugi

se é que há tal espaço

Nessas condições
já não sabe mais o que vê
e o que imagina
Segue apenas o impulso de seu faro

refinado

mas que por diversas vezes
se equivoca em nuances
de sabores externos
que pairam fugidios

Descansa tua química
acalma tua fome
dispersa tua pressão
chora teus olhos gordos

se enfia no amasso trágico e voraz dos pesadelos que sonha
se inventa para se saber e te conhece para que se iluda
se maqueia com os frangalhos do espelho que mordeu
chafurda no ninho caótico de seu próprio desamor

e só então

escolhe quem quer ser

Reboca toda a novidade
do Grande que já foi
mesmo que para o crescimento destes dois fortes braços
necessite amputar tuas graciosas oito patas

a crueldade do eclodir de um ser gentil
dor de um parto experimental

onde o sofrimento

surpreendentemente

não possui espaço

Giramos esta manivela ansiosos
pelo pulo do palhaço medonho de dentro da caixa

Como faz qualquer criança disposta a se machucar nos próprios jogos


Aroma Terciário

Nossa alma junkie impera
na carência corrosiva
que estimula um brilho ocular
insano e insensato

terno

e carinhoso

o sabor de cada beijo
entre bala halls
vodka e nicotina

a gente sempre pega qualquer terciário

frutas secas
abacaxi
amêndoas
whatfuckinever

Damos às lembranças
o sentido que queremos

a memória
expressão artística das vontades
a foto sempre pede tempero
e o vídeo acaba com o romantismo

nossa alma junkie impera

a chave que nada abre
o pincel que nada pinta
sem tela ou fechadura
lá se vai a vida

e ficamos à deriva
com uma esperança enorme
mil vetores e nenhuma direção
e no cúmulo de nosso afogamento

ainda dizemos; Aleluia!

o dia tá bom
vamos ver quanto tempo ele dura dessa vez


Com o Bloco na Rua

Não faça a digestão do que não lhe cabe
Muito menos engula tudo o que deve
Na ciranda do achismo
existe a queda verdadeira

A novidade é justo a falta da mesma

e de uma maneira bizarra
tal fato apenas renova o belo

nem dry
nem high

nem flat


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