Arquivo do mês: maio 2012

Hipsteria

Eles blasfemam a flanela dos lenhadores de Seattle
Assim como as roupas simples dos poetas libertinos do final dos cinquenta

Colorem os óculos oitentistas de Tom Cruise
e não se dignam nem a usar cuecas

Muitos não estão nem aí
Para serem uma verdadeira árvore de natal de referências contraditórias

Alguns menos embotados
Até gostam disso

Eles são uma mixórdia cultural sem sentido
Com chapéus e barbas produzidos em série
As meninas com cabelos chelsea
Os meninos de arrogância master

Eles tocam mal instrumentos de sopro
e não possuem ouvido para o equalizarem

e reclamam

dos outros
da vida
dos dias
de si próprio
do dinheiro do pai

que põe sucrilhos em seu prato

Nunca foram clandestinos em trens e navios
Nunca pegaram uma carona sem rumo
Nunca foram oprimidos por toda uma sociedade
Nunca passaram fome pela própria arte
Nunca serão

Quem disse que era o fim da história?

Esse sujeito estava coberto de razão.

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Balé do Rush

Róseo céu alaranjado que adorna as antenas da metrópole

Nas graças do fraseado de um grand piano
O overflow das informações imagéticas urbanas inicia seu cessar

O momento chega para tranquilizar meu coração

Azul escuro que se define na medida em que o consumo de terawatts da primeira subestação aumenta

Não fosse isso
Não haveria alma irmã em paz

Aonde grilos são buzinas
Mosquitos fuligem
Vagalumes janelas

Mais um final de tarde
Que apenas os privilegiados que folgam na semana podem contemplar

Todo esse caldo pastel de cores e som
Me toma numa dança embriagada anunciando o fim do pânico
O início da magia
Se tivermos sorte hoje a noite
Veremos estrelas

Ao invés dos leds hipnotizantes do maquinário doméstico

Plugs urgentes anestesiantes

De uma solidão inominável
cansada, tediosa e repetitiva da qual não merece nem tal citação

Estar sem estar com
Só me resta contemplar

O róseo que deixou de alaranjar-se ao final do texto


Tão Real

Vagava a criatura enófaga
de hábitos noturnos para lá de suspeitos

De dançarinas dentro de armários
e jovens suicidas de sentimento tetraplégico
ao lado na cama fingindo um sono profundo
sem movimento rápido algum por baixo das pálpebras

O monstro que jamais de novo sonhou
desde que adotou tal condição

Perambulava almoçando ingenuidades
de si e do próximo

e eis que…

Foi tão real
o jeito que o teu sorriso
se rasgava ao final
tal qual

um desenho

É tão davastadoramente real

e ao contrário dos acordes
etílicos
sentimentais
e completamente em pânico
de Jeff Buckley

desaprendi à temer o amor


Sem Garantia

Dinheiro durando
Pretensões latejando

pingando

Rolê garantido
Pão partido

corrompido

Passado insípido
Caráter translúcido

facílimo

A confusão da meta
Venera a errônea reta

como Minos em Creta

Coca-Cola Havana Club e Rock ´n Roll
Melhor que Salsa em Puerto Rico
Amanhã tem mais

Sagaz

Tenaz

Com a validade que a gente sempre traz


Dos Jogos

Nos achamos o maior dos mistérios

Nos fechamos em criptas secretas além-mar
justo para perpetuar e reafirmar
tudo o que queremos nos livrar de

Esfinges e a solidão

Somos dragados a este simbolismo
no mesmo momento em que não queremos interpretá-lo

Nunca mais! – Disse o corvo

O modo que nosso livro se abre ao próximo
nos faz pensar nas pernas de uma puta

e infelizmente nos torna automaticamente reacionários

ao esquecermos do romantismo guardado

nas divinas coxas que escorrem da lingerie barata

O que significa pode ser o que dignifica
tudo questão de índole

É só lembrar de Jesus,
os doze vacilões…

…e a puta.


“Bartista”

Seres em eterna expansão
são seres eternamente comprimidos

opere sobre sua pressão

sem sucumbir ao processo


Da Poeira do Asfalto

Cigarros dançam pelo quarto
e cantam pop gringo em “free-bemol”

Lá fora os gatos pardos já são alguns pingados
nas lanchonetes nordestinas tomando uma Média

A fila do ponto de ônibus na frente do hospital
me ensinou da maneira mais fria possível
que hoje é terça-feira
e eu procurava por cervejas
mas até as onze horas
a paulicéia é novamente do café

Queria seguir o viaduto e sumir
e dar de cara com as entranhas da augusta

Ver se Lou Reed ainda está com os travestis
em coro, em couro, andando no lado mais louco

Cantando em médio-grave, como Tom Waits
até ficar rouco

É que amor nesta cidade nunca fez muito sentido
As avenidas cortam enquanto trens abafam gritos
Alguns se atiram em perdição
outros fogem dos tiros

Gringos “popam” pelo quarto
dançando cigarros sustenidos

Lá fora há tantos gatos tão perdidos
em bares italianos do centro fazendo uma média

A fila do ponto de ônibus na frente do hospital
é sempre do mesmo tamanho a tarde inteira
e então já é quarta-feira
eu afogado em mil cervejas
mas até as duas horas
serei um bom paulista de pouca fé

Queria subir no viaduto e dali
dar com o braço em estranhos na augusta

É que amor nesta cidade nunca fez muito sentido
As avenidas choram enquanto trens gritam
Alguns se atiram em perdição
outros procuram um tiro


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