Arquivo do mês: março 2013

Do Peso dos Corpos

Talvez haja mesmo
o tal desencantamento de alguns universos

Desde a maneira fria com a qual as noites de sábado vão perdendo o brilho com o passar dos anos
Até o gélido toque invasor dos mundos em amor

Quase como se não houvesse o natural
Como se não preferíssemos a morte
ao final zunido de um suspiro dorminhoco
do ser ao qual nos devotamos

Nem percebemos que o natural
é justo o choque de tais estrelas
a invasão dos tais mundos

O natural é o conflito
a evolução
a logia
a ciência

e logo

o desencantamento

Mas não há desespero

Pois não há frieza
em lágrimas tão bem derramadas

Há harmonia

em cada ajuste invasivo
cada corrosão
cada corte

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Blognovela Capítulo 10 – Um Tom Mais Branco de Pálido

O Hammond de Matthew Fisher tocava suas notas mais famosas num programa de rádio. Mesmo sem nunca ter entendido direito o que “we skipped the light fandango” queria dizer, Morgana ensaiava algumas lágrimas enquanto tentava se distrair na internet, em vão.

Ela tenta lembrar o que Matheus havia dito sobre a canção e sua cabeça logo se enche de momentos e imagens que ela prefere ignorar enquanto desliga o som e olha para o armário.

“Parece o momento perfeito para estrear aquele vestidinho novo!” – Pensa enquanto o relógio marca onze e meia da noite.

                                                                        *

Neste mesmo horário, já bêbado, Matheus começa a puxar o bpm da pista do Sniper para cima. Era exato o momento em que as pessoas começavam a chegar para a balada de sexta-feira.

“Bando de amadores, qual é a idade desse pessoal, dezenove, vinte? Preciso arrumar um emprego de verdade.” – Pensa Matheus

Do meio do pequeno aglomerado de pessoas que ia se formando na pista, eis que surge Felipe com um drink fluorescente na luz negra do club, fazendo charmosos passinhos e sorrindo para as meninas.

_Felipe?! Mas a que devo a honra de tão agradável e oportuna presença? – Diz Matheus abrindo enormes sorriso e braços para receber o amigo.

_Você não faz idéia do meu dia hoje. Ri o amigo num tom irônico.

_Energético?

_Com vodka, quer um gole?

_Quero sim, aliás, vou pedir um para mim também. Fala do seu dia que eu te conto o meu depois.

_Ih, o teu também foi tenso?

_Fala você primeiro, espera aí que eu tenho que fazer uma “passagem” aqui.

Matheus foca a atenção aos equipamentos e coloca os fones, Felipe aproveita para dar uma olhada nas garotas que dançam enquanto os graves aumentam e o arranjo muda fazendo sua expedição ocular parecer prontamente mais interessante.

Ele volta o rosto à Matheus.

_Oba! Estou vendo que você está nervoso hoje!

_Mas fala aí, o que rolou?

_Fui convidado para trabalhar na Alemanha.

_O quê, sério?

_Sério!

_Que bom, eu acho… E a banda?

_Relaxa, eu vou recusar.

Matheus se espanta mais ainda.

_Mas Felipe, calma aí, a gente pode chamar alguém para tocar no seu lugar e…

_Não estou ficando no Brasil por causa da banda Matheus.

_O que houve? O dinheiro não é bom?

_O dinheiro é ótimo, o problema é que eu fiquei quatro horas e uma conta de restaurante de trezentos reais discutindo meu futuro com a Isabela.

O amigo escuta boquiaberto, recusar esse trabalho era bem típico de sua natureza, jamais esperou que Felipe fizesse algo do tipo, pelo contrário, em suas expectativas sempre desenhou claramente o adeus do amigo, o garoto dos olhos dos pais, deixando a todos orgulhosos.

_Deu em alguma coisa?

_Brasil e liberdade dois, Alemanha e Isabela zero!

_Quer outra vodka?

_Claro!

                                                                       *

O celular toca, Carolina dentro de um táxi deixa tocar três vezes antes de atender.

“É a Morgana querendo encontrar, o que eu vou falar com essa garota?”

_Ei amiga! – Atende Carolina.

Morgana do outro lado responde:

_Qual é Carolita, vai sair hoje?

_Estou indo para o Sniper.

_Ver o gatinho do chupão?

_É… – Diz carolina um pouco sem graça.

_O Sniper tá fora de questão, não tô a fim de encontrar o povo de lá hoje. – Diz Morgana ao lembrar que o DJ residente do dia era Matheus.

_Ahn, você está aonde? Quero te encontrar.

_Num barzinho do bairro fazendo um esquenta com uns amigos, eles estão querendo ir para a região ver qual boate está melhor.

_Você vem para esses lados?

_Provável.

_Me liga quando chegar, a gente se encontra na pracinha.

_Beleza gata, a gente se vê, beijo!

_Beijo!

Carolina desliga com um olhar apreensivo, ela não ia escapar de uma conversa franca com a amiga.

Em seguida é o telefone de Morgana que toca, ela olha na tela e percebe que é Marcus, mesmo sem estar com muita paciência para sair acompanhada ela atende com uma desculpa qualquer já armada na cabeça caso tivesse que despistar.

_Fala Marquito!

_E aí delícia, já na rua?

_De saída na verdade, estou com problemas femininos e decidi não durar muito. O que você me conta de novo?

Ela dá um riso de canto vangloriando-se em silêncio da sagacidade de sua resposta.

_Nada demais… – ele faz uma pausa – …pensando bem, sabe quais amigos nossos se tornaram um casal recentemente?

Morgana ri e fica entusiasmada, nunca foi de deixar passar uma boa fofoca ainda mais envolvendo dois de seus amigos.

_Não menino, me conta!

_Carolina e Matheus.

Ao contrário do que imaginou a notícia foi recebida como uma colher de sopa ruim fervendo goela abaixo, ela fica um tempo em silêncio tentando administrar a informação. Marcus obviamente percebe o estado de choque de Morgana e sorri sem fazer barulho enquanto manobra o carro em sua garagem, notando que a amiga ia demorar até responder diz;

_Achei que ia gostar de saber, na verdade pensei até que você já sabia sendo tão amiga da Carolina e tudo.

_Quem te contou isso? – Pergunta Morgana não mais em tom de bons amigos.

_Ninguém, o Matheus passou lá no meu bar para vê-la, acho que ele não sabia que eu era o dono do estabelecimento, tivemos um pequeno atrito,  nada grave. A Carolina não te contou nada? – Pergunta ele tentando disfarçar o cinismo.

_Ela me contou que estava vendo alguém, mas não falou quem era.

_Imagino o porquê.

_Pára com isso Marcus, a Carolina nunca conheceu o Matheus, é bem provável que ela nem saiba que ele é meu ex.

_Enfim, estou te contando.

_Muito obrigada, agora dá licença que eu preciso trocar meu modess!

 _Espera aí, você não quer…

Morgana já havia apertado o botãozinho vermelho de seu aparelho batendo o telefone na cara de Marcus. Seu ar pensativo é interrompido pelo amigo ao lado que lhe estica a conta para que pudesse calcular sua parte.

                                                                           *

Há algum tempo Tiago havia sido contratado para ocupar a vaga de mídia social do evento que Marcus e Doña Adalina estavam realizando e hoje mais cedo todos tinham saído para um happy-hour entre colegas de trabalho. Marcus, muito bêbado, se retirara para casa enquanto Fábio e Tiago encaminharam-se a um bar que fechasse mais tarde.

_Você falou que postou o perfil das bandas para voto popular hoje? – Pergunta Fábio.

_Sim, dei uma trabalhada na divulgação em canais do Facebook também.

_Ótimo, como está a venda de ingressos online?

_Indo bem, é provável que todos os dias estejam esgotados até terça que vem.

_Muito bom! Teremos lotação máxima antes da decisão das finais.

_Ué, não são todas aquelas bandas que vão participar?

_Pô Tiago, você não leu o regulamento? As bandas na internet são os pré selecionados, só toca durante o festival aquelas que tiverem mais votos no júri popular.

_Quer dizer que o pessoal está comprando ingresso sem nem saber quem vai tocar?

_Claro, o povo compra ingresso para ver as atrações principais que já estão devidamente contratadas e agendadas, ninguém está nem aí para qual banda vai abrir. Por isso é importante o seu trabalho, você que vai dar força postando os vídeos e os podcasts das bandas até lá para que o pessoal conheça os concorrentes e vote no que achar melhor.

Tiago sorri, descobre que tem poder sobre a visibilidade das bandas e isso viria a calhar em tentar aproximar sua relação com Carolina novamente. Fábio sem notar a preciosidade da informação, dá um gole de cerveja e se lembra de um assunto discutido mais cedo.

_Tiago, que papo torto era aquele do Marcus contigo mais cedo?

_Sobre?

_Sei lá, ele falando qualquer coisa de uma tal de Sara.

_Sara é minha irmã, ela faleceu quando eu tinha nove anos.

_Oh, desculpe.

_Não tudo bem, o Marcus conheceu ela e o pessoal que ela andava na época. Ele acha que talvez alguém daquela galera tenha a ver com a morte dela.

_Por acaso o Matheus era dessa turma?

_Você conhece o Matheus? – pergunta Tiago.

Percebendo a curiosidade do garoto com o amigo, Fábio prefere não fomentar a discussão.

_Ahn, conheço mais ou menos. Estou dizendo isso só para você não dar muita corda nas coisas que o Marcus fala, ainda mais bêbado.

_Relaxa, eu percebi que ele não se dá muito bem com aquele pessoal.

_Ele está recalcado porque o Matheus está de rolo com a gatinha do bar dele, uma que ele queria pegar.

Tiago então liga os pontos e tenta disfarçar sua surpresa.

_Você sabe que quem me indicou para o Marcus foi seu sócio no bar, o Lulu, eu costumo ir lá com certa freqüência, essa gatinha seria a Carolina? Você sabe, a bartender…

_Essa aí mesmo. – Responde Fábio distraído com o movimento da fila do banheiro.

_Entendo, ela é mesmo muito bonita. – Comenta Tiago baixando o tom antes do gole, ele agora sabia por que Carolina não atendia mais seus telefonemas.

                                                                          *

_A Isabela quer a gente num apartamento estiloso em alguma praça bonita em Berlim tomando Veuve Clicquot resfriada na janela. – Comenta Felipe já ficando alto.

_Porra, eu também quero, me leva? – Ri Matheus.

_Ah Matheus, pode parecer bom, mas a qual preço? Sou mais uma casinha no litoral sul do Rio de Janeiro tomando uma Heineken do baldinho de gelo.

­_Bom também, vocês tem sonhos bem legais, atualmente eu ando sonhando em pagar o aluguel do mês que vem! – Ri Matheus.

Felipe já ensaia uma dança um pouco etílica e presta atenção no que está tocando.

_Remix de Procol Harum?! – Pergunta surpreso.

_Um alemão chamado Andre Tanneberger lançou isso há uns dois anos, quem está cantando é a Sarah Brightman.

_Sarah Brightman, nossa, só você mesmo para desenterrar uns espíritos malignos desses. – Brinca Felipe

Uma garota que dança mais perto da cabine olha para Matheus e o lança um beijinho como se agradecendo a música.

_Ah Tetê! As vezes penso que era isso o que eu queria, me esbaldar toda noite, sem esse negócio de escritório, gravata, poder estar de ressaca terça de manhã, comer uma ninfetinha dessas aí por dia… – Desabafa Felipe.

_O que é isso Lipe, até parece que você acha essa vida fácil. Realmente não tem escritório nem gravata e de fato se pode acordar de ressaca na terça, mas esqueceu algumas coisas; A gente acorda de ressaca todos os dias, o que não é nem de longe bom, pior, você começa a não conseguir pagar por estas ressacas, não há vínculo empregatício, aposentadoria, comprovação de renda. Sem falar no risco de pegar uma DST, ou você acha que é só porque elas são novinhas é que elas são limpinhas?

Te conheço Felipe, você tem um bom motivo para não viver assim, é um ser humano imbuído de sensatez! Eu por outro lado, quanto mais rezo mais assombração me aparece.

_Pode ser. – Responde o amigo ainda olhando a dança da garota.

_Você só está dodói com essa história toda de Isabela e Alemanha.

_Faz sentido. Falando em mulher, a Carolina ligou lá pra casa hoje, pouco antes de eu vir para cá, disse a ela que você estaria aqui.

_E você me avisa isso agora?

_O que tem? Você tava todo apaixonado, o que houve?

_Eu não te falei do meu dia ainda não é mesmo?

                                                                        *

Carolina toma uma cerveja no boteco ao lado do Sniper enquanto espera Morgana ligar. Olha no cardápio e tem água na boca ao ver os nomes das cachaças mas antes que pudesse pedir uma.

_Oi Carolina.

Ela pode ver no fundo dos olhos da amiga, não havia muito o que dizer.

_Olha Morgana, eu juro que quando eu descobri já era tarde.

_Tarde demais para me contar Carolina? Espero que você tenha descoberto isso hoje.

Carolina olha para baixo enquanto seus olhos enchem d´água, Morgana levanta o rosto da garota com um olhar fuzilante.

_Não chora não! Conta pra mim Carolina, você ta apaixonada?

_Eu… eu não sei Morgs, a gente…

_Morgs é a puta que te pariu garota! “Eu não sei Morgs…” – repete Morgana zombando – mas a porra da sua buceta você sabe muito bem onde coloca não é mesmo?!

Carolina retoma as forças e afasta a mão de Morgana do seu rosto.

_Porra Morgana, também não precisa esculachar!

_Esculacho sim Carolina, te conheço muito bem, sei que você é incapaz de amar alguém e vai fazer gato e sapato do otário do Matheus!

_E o que tem? Ele não é um otário do jeito que você diz? O que tem se eu dou para um otário qualquer que me aparece também? Se enxerga Morgana, não é como se você tivesse sido um exemplo de esposa.

_O que você ta falando? Você não tem a menor idéia do meu relacionamento com o Matheus, tudo o que eu fiz foi…

_Qual relacionamento Morgana? O que vocês viveram não foi um relacionamento. Não vou ficar aqui dando show em porta de boteco não, vou lá ver se eu começo um relacionamento de verdade!

Carolina joga um dinheiro em cima do balcão.

_Tem uma cerveja pra você aí também, a não ser que prefira gastar seu tempo procurando um pau qualquer pra se esfregar!

Dizendo isso ela sai em direção ao Sniper, deixando Morgana num sentimento confuso entre a traição, a possessividade e a auto-crítica.

                                                                        *

Matheus havia terminado seu set e dava lugar ao DJ convidado sentando-se ao lado de Felipe no balcão.

_As coisas mudaram Felipe, hoje somos nós que vamos ao banheiro na madrugada enquanto elas dormem, com “Will You Love Me Tomorrow” na cabeça. Mulher é um animal cruel, as reprimimos por todos estes séculos não foi à toa. Penso que a quantidade de homossexuais do sexo masculino advém de uma incapacidade nossa de lidar com mulheres no comando das situações.

_Ei, fale por si, eu não tenho esse medo todo de mulher não!

_É, pode ser, mas não possui a mesma experiência que eu. – Caçoa Matheus.

_Falou então “womanizer”! Por falar em mulher, não é a sua ali no canto?

Carolina estava do outro lado do balcão de saia curta e bota militar, parecia procurar por Matheus com olhos investigativos voltados a cabine.

_Como dizia Gainsbourg? “…uma beleza delicada com a desesperança de uma figura trágica.” Ela é assim. – Diz Matheus sem disfarçar o sorriso.

_Por um minuto eu vi você falando da Sara. Cuidado meu amigo, muita calma neste impulso destrutivo.

_Você sabe que calma…

_Você não tem nenhuma? É, eu sei… – Conclui Felipe com ar de saco cheio enquanto estica a cartela para o barman – …ou paz alguma. – Completa baixinho.

Matheus fixa o olhar em Carolina e vem andando lento em sua direção, ela por um tempo ainda o procura na multidão até que este se encontra a sua frente a poucos metros de distância dela.

_Uísque com uma pedra de gelo, cabelo elegantemente desarrumado, jaqueta de mangas dobradas e apenas meia camisa para fora da calça, só para mostrar a fivela do cinto imagino eu. Você não tem vergonha de estar sempre fazendo pose? – Pergunta Carolina.

_Nenhuma, e você?

_Ainda está bravo comigo?

_Pela veia estufada e o resto de rímel na bochecha penso que passou as últimas horas discutindo a relação com uma certa amiga.

_Como pode saber uma coisa assim?

_Acredite, conheço melhor que ninguém um olhar de cansaço após uma discussão com Morgana, ela não está aqui está?

_E se estivesse?

_Eu avisaria a segurança para ficar de olhos abertos.

_Ela ainda mexe com você desse jeito?

_Gente de baixo nível assim mexe é com a integridade de todo um estabelecimento, meu amor.

_Meu amor?

_Deu para notar o sarcasmo?

_Deu.

_Não era a minha intenção.

_O sarcasmo ou que eu o notasse?

_Você perdeu o meu set.

_Não vim ver seu set, vim ver você.

                                                                          *

Morgana ainda está no mesmo bar, bebendo sozinha e engolindo o choro com algumas doses de vodka, ela suspira alto e saca o celular.

_Oi. – Diz a voz do outro lado.

_Onde você está?

_Em casa dormindo.

_Posso ir para aí?

_Morgana, eu não sei se isso que a gente está fazendo é muito legal.

_Por favor, tive uma noite estressante, quando você acordar eu prometo que vou estar longe já.

_Não sei…

_Qual é, da última vez foi você que ligou!

_Tá bom, você vem como?

_De táxi, em cinco minutos estou aí.

_Ai Morgana, se o Matheus ficar sabendo disso…

_Eu estou separada Guilherme, se ele ficar sabendo vai ter que entender que não tem nada mais a ver comigo.


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