Blognovela Capítulo 11 – Fugitivos

 

               O par de ansiolíticos dado por seu primo, faria com que Matheus pudesse apreciar melhor a vista da cobertura. Jorge Rios tinha um belo apartamento no bairro do Leme no Rio de Janeiro. Não haviam conversado nada desde que Matheus apertara a campanhia em choque e exausto pelas nove horas de viagem de ônibus.

               Jorge, seu primo, chega a sacada com um chá e um copo de água com gás e gelo para que Matheus engolisse os comprimidos que já havia mastigado, sentou ao seu lado no sofá para tomar seu chá e pôs a água para Matheus na mesinha, depois amarrou direito o roupão, o Rio não estava tão quente como de costume, ainda mais às sete e meia da manhã expostos a brisa marítima em um inverno que se tornava curioso para o clima local conhecido.

              _Não vai me perguntar como ganhei essa grana toda?

              _Não sei se quero saber, vai me perguntar o que me trouxe aqui?

              _Visto sua apatia, não sei se quero saber também, de qualquer maneira é bom vê-lo aqui primo, quanto tempo tem?

              _Cinco anos.

              _Olha, você sabe! –Diz Jorge surpreso

              _Desculpa não ter visitado antes, quando saiu da clínica?

              _Há um ano e meio eu acho. É engraçado, quando se está internado a passagem dos dias se torna algo importante, depois disso o tempo volta a não ter o menor valor.

              _Como ganhou esse dinheiro todo?

              _Não vai querer saber, bonito não é?

              _Barango e clichê, mas bonito.

              _Que foi, não gosta dos flamingos no jardim de inverno? Quando algo é barango e clichê ao mesmo tempo a gente chama de “Kitsch”.

              _Você tá dando para algum tiozão milionário gringo?

              _Droga! Você sempre adivinha tudo, espertalhão! – Ri Jorge Rios

             _E onde ele está?

             _Você nunca adivinharia essa parte.

             _Ah não Jorge, não me diga que…

             _Sim, ele está morto e eu sou seu único herdeiro, existe uma família em Mônaco que está puta da vida comigo.

              Matheus ergue o copo d’água em um brinde.

            _À uma vida…

            _…sem medo! – Completa Rios.

            _Agora abre logo o Dom Pérignon que você está escondendo de si mesmo em algum freezer desse jardim suspenso da Babilônia. Tenho uma tonelada de lamúria para despejar no seu ouvido.

            Assim Jorge o fez, pegou duas taças bonitas e lustradas e a melhor champagne de sua adega, esticou uma das taças ao primo enquanto abria a garrafa.

           _Serve Cristal? Eu tenho Dom Pérignon também se você quiser.

           _Uau, o gringo era mesmo rico hein?

           _Não fale assim do Giuliano Matheus, senti muito por sua perda.

           _Desculpa. Vai dizer que os cabelos grisalhos que conquistou aos quarenta finalmente redimiram o golpista que sempre houve dentro de ti.

           _Não me julgue mal, conheci o Giuliano há mais de quinze anos, tínhamos um relacionamento há pelo menos dez destes quinze, foi ele que me ajudou quando fui internado, que me deu o emprego no jornal e a família dele só apareceu quando souberam que eu era o herdeiro, não vieram nem ao enterro, você acredita?

            _Não precisa se justificar Jorge, sempre liguei mais para o teu coração do que para o teu caráter.

            _E eu sempre admirei mais o teu talento musical do que essa arrogância imprudente disfarçada de carisma que você chama de charme

            Jorge deu um meio sorriso esticando o punho com a taça em brinde antes de dar uma longa golada do caríssimo champagne. Sensível como estava, Matheus limitou-se a abaixar os olhos enquanto o primo continuava o que estava falando.

           _É bom ter você aqui Matheus, sempre foi o único que presta da nossa merda de família.

           _Eu nem soube dessa história, essa parte da sua vida você esconde dos e-mails.

           _A coisa era complicada, ele nunca quis me assumir até seu último ano de vida. Falemos de você, o que te traz ao Rio com essa cara de cachorrinho abandonado?

           _Você quer a narração romântica ou os fatos nus e crus?

           _A narração romântica é óbvio.

          _Então tá.

          Matheus pigarreou e mudou a voz. Como se narrasse um documentário começou:

          _Talvez eu estivesse começando a amar Carolina, emaranhado na teia louca entre a separação do que achei erroneamente ser o que limpava minha alma e todos aqueles quereres profundos, invasivos, solteiros e libertinos, para não dizer suicidas…

         _Impulsos?

         _Quereres!

         _Sim, prossiga.

         _Estávamos em um certo impasse no relacionamento e ela me visitou sem avisar na boate que discoteco nas sextas, fizemos as pazes comprando cinco balas para tomarmos os três lá em casa.

          _Os três?

          _O Lipe estava comigo na hora.

          _Agora entendi tudo! – Riu Jorge.

          _Enfim, não lembrava muito da noite mas, quando acordei…

          _Quando acordou…

           _…a voz rouca e enfática de Tom Waits penetrava – infelizmente – com harmonia em meu sono, o som estava alto e tocava o “Rain Dogs” acho que pela oitava vez. Com a cabeça doendo consegui me virar de modo a enxergar o aparelho de som, origem do meu sofrimento. Como dizia a letra; “Até Jesus quis um tempo a mais…”

           _“Walking Spanish”?

           _Exato. Consegui esticar o dedo até o botão para desligar antes do refrão e percebi que estava pelado no chão da sala.

            _Que delícia!

            _O sol lá fora já se punha enquanto seguia torto até a geladeira para descobrir que não havia água gelada… – Jorge faz uma careta, sabia bem como era essa situação numa ressaca destas, Matheus continuou – …ou gelo.

Bendito o dia em que comecei a guardar a Neosaldina no armário logo acima do filtro, junto aos copos. Peguei o maior deles e me servi de dois comprimidos para então começar a reconstruir a noite anterior correndo os olhos pelo chão

            Havia um lençol, umas três camisinhas usadas e algumas embalagens rasgadas. Na mesinha de centro um prato sujo de cocaína com três pedaços de papel enrolados como canudo e um cartão de crédito. Não tive dúvida, raspei o restinho que acabou dando um carreirão, acho que para aproveitar a dose final de uma garrafa de Jack que estava ali do lado

            _O verdadeiro café da manhã dos campeões! – Debocha Rios.

            _Depois de aspirar a cocaína e dar um gole no uísque, tentei apertar os olhos para ler as informações no cartão que dizia; “Carolina A. dos S. Correia” e o que começou com um sorriso foi aos poucos se transformando numa expressão de pânico. Gritei o nome do Felipe sonora e desesperadamente tentando me equilibrar no caminho de seu quarto para ser atendido por Carolina que vestia uma camisa dele e a calcinha.

            Depois peguei o cachê que tinha ganhado na boate e comprei uma passagem para cá, quando te liguei da rodoviária achei que ia ter que pegar um ônibus para Madureira e olha só minha surpresa quando desembarquei na zona sul.

             Jorge aplaudia.

             _Bravo! Adorei o tom da narração romântica – riu – então você está tristinho porque o ménage que organizou terminou bem?!

            _Eu estou puto porque não consigo ter um relacionamento normal!

           _E porque você tem tanto que ter este tal relacionamento normal? Aceita a porra do puto dentro de você, relaxa e goza.

           _Eu não aguento Jorge, essa é a verdade, a droga mais mortal que assola meu circo dos vícios é minha própria filosofia de vida e isso é um elemento muito difícil de neutralizar. Eu quis os dois mortos, eu quis monogamia e filhinhos, quis a vida careta e babaca que lutei todos os anos da minha vida para não ter e agora estou muito assustado com a maneira que esta vem se desenrolando.

           _Ai Matheus, a Sara, a Morgana e agora a tal da Carolina, o problema deve estar mesmo em você.

           _Está Jorge, eu sei que está, só não consigo mudar.

           _Você não vai mudar do dia pra noite, ninguém muda. Eu fiquei três anos internado, odiando cada dia da internação e ao mesmo tempo sabendo que se não estivesse lá, se estivesse na rua, ia dar um jeito qualquer de ficar perto da morte nem que fosse para me tirar do tédio. O problema básico era que qualquer coisa que não fosse estar alcoolizado dentro de um carro a cento e vinte por hora ou doido do máximo de entorpecentes possível numa festa cheia de gente promíscua e duvidosa  era extremamente tedioso, como por exemplo trabalhar ou ir pagar contas no caminho da padaria.

          _E quando foi o “click”?

          _Como assim o “click”?

          _Quando descobriu isso?

          _Quando fazer orgias drogado e tentar me matar em alta velocidade ficou igualmente tedioso.

         _Claro! Ficar sóbrio às vezes é a maior das ondas.

         _E é Matheus! É sim.

          _Talvez, o lance é que me pus num momento da vida que realmente não previ. Como se acordado de um sonho e descoberto que está tarde demais para começar qualquer coisa entende? Tudo o que eu gostaria de começar a construir me dá uma preguiça monstra, como se a força necessária para isto só existisse uma vez em nossas vidas e eu a tivesse usado toda em desperdício.

                                                                            *

              Era dia de ensaio e como sempre Felipe ligava para Matheus e para Guilherme confirmando, mas após a briga de ontem o telefone de Matheus estava desligado e o baixista achou melhor ligar para o baterista avisando que não ia ter ensaio

            _Fala Felipe.

            _Ei Gui, por acaso você não teria notícias do Matheus, teria?

            Guilherme engole seco, era o segundo dia consecutivo que passava com Morgana, ele podia vê-la preparando um lanche em sua cozinha neste exato momento.

            _Porque eu teria? Você é que mora com ele.

            _A gente teve uma discussão ontem a tarde e desde então o cara não atende o

telefone, também não dormiu em casa.

            _Isso quer dizer que não tem ensaio hoje?

            _Acho que não.

            _De repente é bom ter um domingo livre para variar.

            _Estou preocupado com ele Gui.

            _Relaxa, ele deve ter chapado na casa de alguma peguete, são duas da tarde ainda, lá pelas quatro ele vai acordar na maior ressaca e ligar pedindo desculpas.

            _Não sei não, tivemos uma divergência meio séria.

            _Qual divergência?

            _Ah Gui, ele estava meio de rolo com essa menina e aí a gente veio aqui pra casa tomamos um monte de “bala” e você sabe como essas coisas desenrolam.

            _Ele acordou com ressaca moral por ter dividido o pão?

            _Exatamente.

            _Ah Felipe, vocês também não aprendem! Quando que isso deu certo na vida de vocês dois? – Diz Guilherme lembrando dos atritos todos que os amigos já haviam tido neste mesmo tipo de situação.

            _Enfim, também não estou orgulhoso, se souber de algo me liga.

            _Pode deixar…

            Guilherme estava quase desligando quando Morgana gritou de lá de dentro.

            _Guilherme, onde diabos você guarda o sal nessa zona que você chama de cozinha?

            _Tem alguém aí contigo?

            _Er… tem sim, preciso desligar

            _Eu conheço essa voz, parece muito com a da…

            Guilherme havia desligado, Felipe porém não parecia ter muitas dúvidas em relação a identidade da companhia do amigo.

            _Tá tudo fudido! – Diz alto enquanto procura por cigarros na gaveta e acaba achando alguns papéis do trabalho ao lado do maço.

            Ele passa um minuto contemplando as folhas enquanto fuma, depois, tomado por uma nova energia Felipe entra no computador e começa a escrever qualquer coisa num e-mail…

…em alemão.

                                                            *

 

 

           “Só um belo dia

            Pois se jura, se esconjura

            Se ama e se tortura

            Se tritura, se atura e se cura

           A dor

           Na orgia”

 

            Cantava Carolina junto a Chico aos prantos em seu quarto, talvez na mesma dor de Matheus de simplesmente não conseguir fazer nada direito em sua vida amorosa. Descia o olhar pelo próprio braço; do arranhão a beira da tatuagem no bíceps, feito pelas unhas de Matheus enquanto Felipe a segurava pelas coxas até o copo de vodka com gelo que acabara de se servir. Desligara o telefone, a bossa e a fossa seriam só dela pelo tempo que durasse.

           “Que merda Carolina, o pior sentimento ruim é aquele onde não há de fato alguma culpa, só resta a porra esmagadora de um peso sem sentido. Maldito experimentalismo! Agora não sei se tenho raiva do Matheus por promover algo que não deu conta, raiva de mim por ter topado algo que obviamente daria errado ou só pena de mim mesma por sentir culpa cristã a esta altura do campeonato.”

           Carolina tenta limpar as lágrimas e disca para Matheus mas em breve descobre que seu telefone está desligado.

           “Ao menos sei que o problema não é só comigo, o filho da mãe tá tão transtornado que deve ter sumido do mundo! Eu tinha que resolver isso dentro de mim, decidir o que eu sinto e dar nomes a estes sentimentos. Amo tanto que não sei se sou capaz de amar alguém. Amor sem vetor que nunca é por mim mesma também, isso não é amor – interrompe o pensamento olhando fixamente para o copo e o vira numa golada só – é só algum tipo novo de vício!” – Conclui.

                                                                        *

            Fábio se apoia na divisória do cubículo de Thiago na empresa e o observa trabalhando, este absorto em seus afazeres nem percebe o assistente do patrão o olhando. O assistente decide se fazer notado iniciando a conversa.

            _Oi Thiago.

            Thiago dá um pulo na cadeira de susto.

            _Oi Fábio, tudo bem? – Diz um pouco desconcertado.

            _Vou fingir que não vi você jogando computador no trabalho e te parabenizar pela divulgação das bandas.

            _Obrigado.

            _Achei legal, escolheu bem as canções de cada um e fiquei pessoalmente satisfeito em ver a banda da Carolina em terceiro lugar na escolha da audiência.

            _Legal, eu acho o som dela muito bom também.

            _É, eu também… – Fábio faz uma pausa – Eles estão bem adiantados no material pelo que pude ver, tem clipe, vídeo, link para blog, entrevista na TV, cd à venda, bem bacana.

            _Eu fiz questão de colocar o máximo de informação disponível sobre as bandas em nosso site. – Diz Thiago tentando mostrar serviço.

            _É mesmo?

            _Mesmo, até recebi um e-mail desta banda aqui agradecendo as informações que juntei sobre eles, coisas que nem estavam no release que mandaram!

            O rosto de Fábio não parecia muito contente.

            _Engraçado Thiago, uma das bandas que eu mais gosto que está neste festival, tem dez anos de carreira, mandou um release completo com vídeos, fotos, clipping, os caras já lançaram dois discos independentes, tocaram nas rádios e tudo o que vejo em nosso site é uma faixa demo do primeiro cd. Não sei se você conhece a banda, chama-se “Pixel” e tem um “amigo” nosso no vocal, o Matheus.

            Thiago foi pego de calças curtas, não imaginou que Fábio estava tão ligado em seu trabalho visto a quantidade de tarefas burocráticas as quais Marcus o havia designado. Engasgou uma ou duas vezes.

            _Er… Devo ter me distraído.

            _Distraido Thiago?! Corrigir sua “distração” não vai ajudar os caras que deveriam estar entre os três primeiros em votação já que são a melhor banda da categoria que existe na cidade. Você colocou a banda do Matheus entre os últimos por motivos pessoais e isso não vai passar batido!

            _O que é isso Fábio?! Você está insinuando que…

            _Não estou insinuando nada Thiago, me faz o favor de colocar os dados todos que faltam da Pixel no site, se houver justiça divina nesse mundo eles não precisarão da semana de votação que passou para estar entre os primeiros em pouco tempo. Fui claro?

            _Sim Fábio, calma.

            _Calma… – Repete o assistente enquanto se vira para o corredor.

            Fábio sai nervoso, sabia também que não podia contar com o apoio da chefia neste caso, se Marcus soubesse da tramóia de Thiago era capaz de promovê-lo. Depois pensou em algo que pudesse realmente fazer e digitou o número de Matheus no telefone, teoricamente ele não deveria se envolver assim com uma banda participante mas visto a conspiração contra a Pixel Fábio achou que seria o mais correto. Logo descobriu que Matheus estava inacessível.

            “Droga Matheus! Péssima hora para desligar o telefone!” – Pensou Fábio consigo antes de mandar um e-mail para Matheus contando o ocorrido.

            “Quando o Matheus descobrir o que está acontecendo esse moleque vai ter o que merece.”

                                                            *

               _Quer dizer que aquela piriguete já meteu os pés pelas mãos?! Foi até rápido.

               _Pô Morgana, você não vai ficar contando essas coisas por aí. Estou dizendo pela nossa intimidade.

              _Que intimidade Guilherme, ficou doido? Só porque a gente trepa mais do que antes não quer dizer que laços tenham se desenvolvido.

              _Devia ter ficado quieto.

              _Devia mesmo. Relaxa, não tenho nada a ver com isso, quero distância dessas tretas de Matheus e Carolina, mas é engraçado.

              _O que tem de engraçado em ver seus amigos se dando mal?

              _Seus amigos. É definitivamente engraçado saber que a bunda-molice do Matheus continua crescendo em progressão geométrica! Passa a minha calcinha que eu tenho que ir embora.

              _Vai embora já?

              _Claro garoto, tenho casa sabia? Anda, passa logo minhas coisas.

              O sol das quatro da tarde ardia mesmo com o vento frio de inverno, nada páreo para o imenso óculos hype de Morgana que acendia um cigarro na saída da casa de Guilherme enquanto se ria por dentro dando o play em “These Boots Were Made For Walking” com Nancy Sinatra em seu celular. Na curva em direção ao ponto de táxi não se aguentou.

             _Alô Tina? Menina, você não imagina o bafón!

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