Arquivo da categoria: Amanhecer

Kyklos

Aos olhos e mente infantis o circo era espetacular
a idéia de um lar feito de uma janela em movimento
por cima de um asfalto que traz sempre a novidade

com a elegância de uma solidão paradoxal

nas cores de paisagens infinitas
o sofrimento parecia um mito sombrio
inventado para colar seus pés no chão

como uma mentira paternal às vezes o faz

Aos braços cansados de um homem capaz
o circo reverbera urros de um leão faminto
aos chicotes estalados de um público incansável

mais uma tenda cintilando ao próprio caos

O homem capaz conhece seu lar fixo nas coisas de verdade
e sabe que lá estão as cordas e lonas
de um novo espetáculo infante

com o aroma de um jovem legado

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Onironauta

Dentro do zilhão de afazeres

à esquerda da cervejinha gelada do final da tarde

a geração a qual lhes foi negado o happy hour

(vide novas leis de trânsito)

delira firme um mundo novo

 

Os vícios diminuem de modo inversamente proporcional ao volume de tarefas

Uma regra simples para qualquer semi-responsável

Não há desespero ou conflito interno

não há histeria ou depressão

Há apenas o bom e velho

Caminho

 

Um terreno bem preparado não é feito de ansiedade

planejamentos exatos e sacrifícios de deixar cabelos em pé

e sim de experiências, sabores coloridos que se babam em erros épicos

é disso que são feitos os guerreiros mais velhos nas batalhas

Para estes sobreviventes

 

O amadurecimento não é um cubo alienígena

Não é uma esfinge a ser decifrada que te devorará

Se não tiver seus livros do segundo grau decorados

 

Para eles

é apenas o início de um sonho lúcido

que terá todas as antigas variáveis e reveses

mas fará parte apenas do que sabem já ser


Binah

Puxando a cordinha da persiana das ilusões
Como se tirasse a fumaça densa daqueles antigos salões

Já tidos como antigos

Vago indiferente por coquetéis melados de grenadine
Por shortinhos desnutridos com ar infanto-juvenil
Por composições sem canção

Despertencendo

Não mais que de repente
Ali não mais estou

Escorrego num amanhecer central
Sem lembrar dos óculos escuros
Esperando um ônibus sem som
e sem ressaca

Alguns diriam que a fé daquele homem o abandonou
Ao menos seu menino interno nunca mais foi mencionado

Os passos no chão marcam distância e não idéias
Mas não faz mal

As idéias o aguardam

ao cessar destes mesmos passos


Do Peso dos Corpos

Talvez haja mesmo
o tal desencantamento de alguns universos

Desde a maneira fria com a qual as noites de sábado vão perdendo o brilho com o passar dos anos
Até o gélido toque invasor dos mundos em amor

Quase como se não houvesse o natural
Como se não preferíssemos a morte
ao final zunido de um suspiro dorminhoco
do ser ao qual nos devotamos

Nem percebemos que o natural
é justo o choque de tais estrelas
a invasão dos tais mundos

O natural é o conflito
a evolução
a logia
a ciência

e logo

o desencantamento

Mas não há desespero

Pois não há frieza
em lágrimas tão bem derramadas

Há harmonia

em cada ajuste invasivo
cada corrosão
cada corte


Ciúme

Teu demônio nunca mais me visitou

e o meu, anda saciado de forma horripilante

Entre fadas e duendes da mitologia amorosa
nos descobrimos

esses fofos sacos de carne mágica

Tomara que saia um pé de feijão

do meu cu!


Sem Mais

Em terra de Souza Cruz quem tem Marlboro é viciado

Repetindo tal mantra eu vagava pelas ruas da capital
das Gerais

Não só na idade mas na altura da vida
de sentir-se em plena autonomia
de não mais se permitir ser insultado
de garras para fora esfomeado
cabeça, corpo, alma
lavados
enxagüados e enxutos
brilhoso e altivo

nada mais

Não mais assolado por sentimentos abusivos
ou arrependimentos gastos
Não mais ferido de maneira infantilóide
Não mais esmorecido por qualquer covardia que a tristeza ainda me guardasse
Trazia na bolsa a cabeça da Medusa
e tinha todo o direito de me sentir Perseu
herói de mim mesmo finalmente sou
Aleluia!

nada mais

e o que estes cães todos querem
é o que trago na ponta da língua
é o que tenho cá em meus braços
é o que demorei pra ganhar
e o que eu ganho é o que eu batalho por
numa luta por demais contínua
logo brado com meu peito à mostra
que o que eu tenho é o que eu mereço e

nada mais


Hipsteria

Eles blasfemam a flanela dos lenhadores de Seattle
Assim como as roupas simples dos poetas libertinos do final dos cinquenta

Colorem os óculos oitentistas de Tom Cruise
e não se dignam nem a usar cuecas

Muitos não estão nem aí
Para serem uma verdadeira árvore de natal de referências contraditórias

Alguns menos embotados
Até gostam disso

Eles são uma mixórdia cultural sem sentido
Com chapéus e barbas produzidos em série
As meninas com cabelos chelsea
Os meninos de arrogância master

Eles tocam mal instrumentos de sopro
e não possuem ouvido para o equalizarem

e reclamam

dos outros
da vida
dos dias
de si próprio
do dinheiro do pai

que põe sucrilhos em seu prato

Nunca foram clandestinos em trens e navios
Nunca pegaram uma carona sem rumo
Nunca foram oprimidos por toda uma sociedade
Nunca passaram fome pela própria arte
Nunca serão

Quem disse que era o fim da história?

Esse sujeito estava coberto de razão.


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