Arquivo da categoria: Anoitecer

Então é Natal.

Chuva ininterrupta

Carros com fome de shopping

Céus infinitamente escuros

As luzes, eu, você, sabemos que é fim de ano

Não há praia remota

Nem um grande julgamento de passado

Este será apenas outro

Coisas que se aprende

Quando achar que Dezembro é Maio

Significa

Que só para quem agora não corre

Significa

Nós que corremos o ano todo

Todos os anos

E não temos data para ser feliz

Só vemos o quanto o céu fica mais escuro

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Legado

Nada sei mais da febre ou carrego qualquer conhecimento sobre fanatismo

Não mais sinto arrepios além da carne e do osso

Assim vejo meus ídolos

Que já há muito não idolatro

 

Mal e porcamente entendo os dias

Sobreposições anti-estéticas de impulsos alheios

Marcha fúnebre travestida de nupcial

Ode ao forno

ao moedor de carne

 

Persevero a ignorância de meus heróis

Isso ainda o faço

Não só por mero entretenimento

Mas por ardor

Quase como penitência

 

Endeuso as voltas da roupa de cama

Que deveriam fossilizar teu sono

 

Espero o momento


Do Meio Para o Início

Pessoas frágeis como vidro num universo delicado

Com vergonha das próprias cores estranhas

Insistindo em pintá-las deliberadamente

Se contradizem de maneira plena enquanto ditam sua beleza torta

 

Neste exercício em carregar os mais pesados corações

Nossos sorrisos hemorrágicos dos mais borrados batons

Mancham amizades em repetitivos beijos infantis

No fim de tarde pastel eterno de nossos internos outonos

 

A validade da maravilha

Contrasta com o dimmer ascendente de seu próprio brilho

Na entonação hipnótica da memória

A boa e velha maquiagem da lembrança

 

Escravos da novidade

Cobrando honorários absurdos

Sem ao menos prestar horas extras

Sem entender

 

A toada maquiavélica das estações

A juventude osmótica do reencontro

A densa clarividência do amadurecimento

A graça abençoada do rompimento


Trebaruna

Coisa plena acelerada

Adaptação quando toma forma de entidade

Ilumina e dissolve o adverso sem  ousar parecer mais fácil

Trasgo infeliz parido impaciente às coxas do verão passado que vem morrer satisfeito à genitália de mais uma primavera

Só serviu para arrancar do chão as toras que serão o alicerce de um futuro lar

Sua vida curta e truculenta possui nobreza indiscutível e dá caráter harmônico a polifonia atonal do curso da vida

A deusa caprichosa benzedeira de mais esta casa, escreve em suas paredes a reza de ciclos eternos, jogando ao vento fagulhas e chamas de inimizade com o para sempre

O que é seu

você um dia guardou


Tira Dentes

Mineiras picaretas esburacaram o caminho
de modo que o trem da minha vida
não pudesse mais passar

Escura e funda a mina
que jamais viria
novamente iluminar

Do imenso, frio e dolorido buraco
extraí a dor necessária
todas as penas para um cafeeiro cocar

Mas de novo na jovem cidade centenária
entregue a seus bares, crises e abraços
venho em redenção me anestesiar

Mineiras picaretas por ofício
afastam-me o dentifrício
com o qual nunca mais pude contar

e tratando meu canal
das falhas vias que impulsionam a nau
obturo-me em mais este bar

Desta vez café com colo
nos fortes seios que me escoram
sinto a velha e constante loucura

lentamente

me abandonar


Balé do Rush

Róseo céu alaranjado que adorna as antenas da metrópole

Nas graças do fraseado de um grand piano
O overflow das informações imagéticas urbanas inicia seu cessar

O momento chega para tranquilizar meu coração

Azul escuro que se define na medida em que o consumo de terawatts da primeira subestação aumenta

Não fosse isso
Não haveria alma irmã em paz

Aonde grilos são buzinas
Mosquitos fuligem
Vagalumes janelas

Mais um final de tarde
Que apenas os privilegiados que folgam na semana podem contemplar

Todo esse caldo pastel de cores e som
Me toma numa dança embriagada anunciando o fim do pânico
O início da magia
Se tivermos sorte hoje a noite
Veremos estrelas

Ao invés dos leds hipnotizantes do maquinário doméstico

Plugs urgentes anestesiantes

De uma solidão inominável
cansada, tediosa e repetitiva da qual não merece nem tal citação

Estar sem estar com
Só me resta contemplar

O róseo que deixou de alaranjar-se ao final do texto


Dos Jogos

Nos achamos o maior dos mistérios

Nos fechamos em criptas secretas além-mar
justo para perpetuar e reafirmar
tudo o que queremos nos livrar de

Esfinges e a solidão

Somos dragados a este simbolismo
no mesmo momento em que não queremos interpretá-lo

Nunca mais! – Disse o corvo

O modo que nosso livro se abre ao próximo
nos faz pensar nas pernas de uma puta

e infelizmente nos torna automaticamente reacionários

ao esquecermos do romantismo guardado

nas divinas coxas que escorrem da lingerie barata

O que significa pode ser o que dignifica
tudo questão de índole

É só lembrar de Jesus,
os doze vacilões…

…e a puta.


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