Binah

Puxando a cordinha da persiana das ilusões
Como se tirasse a fumaça densa daqueles antigos salões

Já tidos como antigos

Vago indiferente por coquetéis melados de grenadine
Por shortinhos desnutridos com ar infanto-juvenil
Por composições sem canção

Despertencendo

Não mais que de repente
Ali não mais estou

Escorrego num amanhecer central
Sem lembrar dos óculos escuros
Esperando um ônibus sem som
e sem ressaca

Alguns diriam que a fé daquele homem o abandonou
Ao menos seu menino interno nunca mais foi mencionado

Os passos no chão marcam distância e não idéias
Mas não faz mal

As idéias o aguardam

ao cessar destes mesmos passos

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Clássicos

“Santa palhaçada Batman!”

Disse Robin ao ver Coringa expondo o beijo do casal na internet.


Ressaca

Me rompe o sono da madrugada este ladrar de amores equivocados

Lapsos temporais irrecorríveis ao desbotado nítido do arrependimento

Senhoras e senhores, se esta laceração há muito cristalizada de plaquetas

banhada sutilmente ao longo do tempo por camadas anuais de tecido fibroso

ainda se pode chamar de ferida

haveremos aqui de refazer toda a nossa medicina

Não, não é o caso

Pois o que aí está nem de cicatriz se pode mais chamar

Nada disso a não ser a grossa camada córnea,

pronta a novos rasgos

de fato me pertence

Não é meu o encontrão na quina de concreto que insistem em chamar de amor

Não é minha a angústia labiríntica que dão a alcunha de arrependimento

Nem tampouco o despreparo em consolar o próprio coração que lhes come por dentro qualquer sensatez ou alívio

Toda lâmina que ergui encontrou sua redenção em algum sangue

e agora suas bainhas as descansam lavadas no armário

Se foi algo que fiz com ciência e ainda o faço com ternura é amar

Mas as bússolas possuem um norte apenas!


Playstation

Entre a massa há mercenários

Entre o povo e o governo, ladrões

Deles, vários e vários milhões

No mundo virtual é moda vestir subversão

Sim,

Esperamos toda a vida por este momento

Bem como nossos pais

Mas entre gás e bala de borracha

Ninguém mais entende a piada


Honorável?

Implacável tempo que sabe todos os nossos nomes

Durmam lindos crianças do além

A dádiva é de vocês e ninguém pode negar

Alma flat que o povo não pode difamar

 

Nossas sombras são tão coloridas que nos dão náusea

 

Queríamos tanto aquele glamour P&B

 

Mas sempre há o futebol

Sempre havemos de ser

Gladiadores do non-sense


Legado

Nada sei mais da febre ou carrego qualquer conhecimento sobre fanatismo

Não mais sinto arrepios além da carne e do osso

Assim vejo meus ídolos

Que já há muito não idolatro

 

Mal e porcamente entendo os dias

Sobreposições anti-estéticas de impulsos alheios

Marcha fúnebre travestida de nupcial

Ode ao forno

ao moedor de carne

 

Persevero a ignorância de meus heróis

Isso ainda o faço

Não só por mero entretenimento

Mas por ardor

Quase como penitência

 

Endeuso as voltas da roupa de cama

Que deveriam fossilizar teu sono

 

Espero o momento


Do Peso dos Corpos

Talvez haja mesmo
o tal desencantamento de alguns universos

Desde a maneira fria com a qual as noites de sábado vão perdendo o brilho com o passar dos anos
Até o gélido toque invasor dos mundos em amor

Quase como se não houvesse o natural
Como se não preferíssemos a morte
ao final zunido de um suspiro dorminhoco
do ser ao qual nos devotamos

Nem percebemos que o natural
é justo o choque de tais estrelas
a invasão dos tais mundos

O natural é o conflito
a evolução
a logia
a ciência

e logo

o desencantamento

Mas não há desespero

Pois não há frieza
em lágrimas tão bem derramadas

Há harmonia

em cada ajuste invasivo
cada corrosão
cada corte


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