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Blognovela Capítulo 11 – Fugitivos

 

               O par de ansiolíticos dado por seu primo, faria com que Matheus pudesse apreciar melhor a vista da cobertura. Jorge Rios tinha um belo apartamento no bairro do Leme no Rio de Janeiro. Não haviam conversado nada desde que Matheus apertara a campanhia em choque e exausto pelas nove horas de viagem de ônibus.

               Jorge, seu primo, chega a sacada com um chá e um copo de água com gás e gelo para que Matheus engolisse os comprimidos que já havia mastigado, sentou ao seu lado no sofá para tomar seu chá e pôs a água para Matheus na mesinha, depois amarrou direito o roupão, o Rio não estava tão quente como de costume, ainda mais às sete e meia da manhã expostos a brisa marítima em um inverno que se tornava curioso para o clima local conhecido.

              _Não vai me perguntar como ganhei essa grana toda?

              _Não sei se quero saber, vai me perguntar o que me trouxe aqui?

              _Visto sua apatia, não sei se quero saber também, de qualquer maneira é bom vê-lo aqui primo, quanto tempo tem?

              _Cinco anos.

              _Olha, você sabe! –Diz Jorge surpreso

              _Desculpa não ter visitado antes, quando saiu da clínica?

              _Há um ano e meio eu acho. É engraçado, quando se está internado a passagem dos dias se torna algo importante, depois disso o tempo volta a não ter o menor valor.

              _Como ganhou esse dinheiro todo?

              _Não vai querer saber, bonito não é?

              _Barango e clichê, mas bonito.

              _Que foi, não gosta dos flamingos no jardim de inverno? Quando algo é barango e clichê ao mesmo tempo a gente chama de “Kitsch”.

              _Você tá dando para algum tiozão milionário gringo?

              _Droga! Você sempre adivinha tudo, espertalhão! – Ri Jorge Rios

             _E onde ele está?

             _Você nunca adivinharia essa parte.

             _Ah não Jorge, não me diga que…

             _Sim, ele está morto e eu sou seu único herdeiro, existe uma família em Mônaco que está puta da vida comigo.

              Matheus ergue o copo d’água em um brinde.

            _À uma vida…

            _…sem medo! – Completa Rios.

            _Agora abre logo o Dom Pérignon que você está escondendo de si mesmo em algum freezer desse jardim suspenso da Babilônia. Tenho uma tonelada de lamúria para despejar no seu ouvido.

            Assim Jorge o fez, pegou duas taças bonitas e lustradas e a melhor champagne de sua adega, esticou uma das taças ao primo enquanto abria a garrafa.

           _Serve Cristal? Eu tenho Dom Pérignon também se você quiser.

           _Uau, o gringo era mesmo rico hein?

           _Não fale assim do Giuliano Matheus, senti muito por sua perda.

           _Desculpa. Vai dizer que os cabelos grisalhos que conquistou aos quarenta finalmente redimiram o golpista que sempre houve dentro de ti.

           _Não me julgue mal, conheci o Giuliano há mais de quinze anos, tínhamos um relacionamento há pelo menos dez destes quinze, foi ele que me ajudou quando fui internado, que me deu o emprego no jornal e a família dele só apareceu quando souberam que eu era o herdeiro, não vieram nem ao enterro, você acredita?

            _Não precisa se justificar Jorge, sempre liguei mais para o teu coração do que para o teu caráter.

            _E eu sempre admirei mais o teu talento musical do que essa arrogância imprudente disfarçada de carisma que você chama de charme

            Jorge deu um meio sorriso esticando o punho com a taça em brinde antes de dar uma longa golada do caríssimo champagne. Sensível como estava, Matheus limitou-se a abaixar os olhos enquanto o primo continuava o que estava falando.

           _É bom ter você aqui Matheus, sempre foi o único que presta da nossa merda de família.

           _Eu nem soube dessa história, essa parte da sua vida você esconde dos e-mails.

           _A coisa era complicada, ele nunca quis me assumir até seu último ano de vida. Falemos de você, o que te traz ao Rio com essa cara de cachorrinho abandonado?

           _Você quer a narração romântica ou os fatos nus e crus?

           _A narração romântica é óbvio.

          _Então tá.

          Matheus pigarreou e mudou a voz. Como se narrasse um documentário começou:

          _Talvez eu estivesse começando a amar Carolina, emaranhado na teia louca entre a separação do que achei erroneamente ser o que limpava minha alma e todos aqueles quereres profundos, invasivos, solteiros e libertinos, para não dizer suicidas…

         _Impulsos?

         _Quereres!

         _Sim, prossiga.

         _Estávamos em um certo impasse no relacionamento e ela me visitou sem avisar na boate que discoteco nas sextas, fizemos as pazes comprando cinco balas para tomarmos os três lá em casa.

          _Os três?

          _O Lipe estava comigo na hora.

          _Agora entendi tudo! – Riu Jorge.

          _Enfim, não lembrava muito da noite mas, quando acordei…

          _Quando acordou…

           _…a voz rouca e enfática de Tom Waits penetrava – infelizmente – com harmonia em meu sono, o som estava alto e tocava o “Rain Dogs” acho que pela oitava vez. Com a cabeça doendo consegui me virar de modo a enxergar o aparelho de som, origem do meu sofrimento. Como dizia a letra; “Até Jesus quis um tempo a mais…”

           _“Walking Spanish”?

           _Exato. Consegui esticar o dedo até o botão para desligar antes do refrão e percebi que estava pelado no chão da sala.

            _Que delícia!

            _O sol lá fora já se punha enquanto seguia torto até a geladeira para descobrir que não havia água gelada… – Jorge faz uma careta, sabia bem como era essa situação numa ressaca destas, Matheus continuou – …ou gelo.

Bendito o dia em que comecei a guardar a Neosaldina no armário logo acima do filtro, junto aos copos. Peguei o maior deles e me servi de dois comprimidos para então começar a reconstruir a noite anterior correndo os olhos pelo chão

            Havia um lençol, umas três camisinhas usadas e algumas embalagens rasgadas. Na mesinha de centro um prato sujo de cocaína com três pedaços de papel enrolados como canudo e um cartão de crédito. Não tive dúvida, raspei o restinho que acabou dando um carreirão, acho que para aproveitar a dose final de uma garrafa de Jack que estava ali do lado

            _O verdadeiro café da manhã dos campeões! – Debocha Rios.

            _Depois de aspirar a cocaína e dar um gole no uísque, tentei apertar os olhos para ler as informações no cartão que dizia; “Carolina A. dos S. Correia” e o que começou com um sorriso foi aos poucos se transformando numa expressão de pânico. Gritei o nome do Felipe sonora e desesperadamente tentando me equilibrar no caminho de seu quarto para ser atendido por Carolina que vestia uma camisa dele e a calcinha.

            Depois peguei o cachê que tinha ganhado na boate e comprei uma passagem para cá, quando te liguei da rodoviária achei que ia ter que pegar um ônibus para Madureira e olha só minha surpresa quando desembarquei na zona sul.

             Jorge aplaudia.

             _Bravo! Adorei o tom da narração romântica – riu – então você está tristinho porque o ménage que organizou terminou bem?!

            _Eu estou puto porque não consigo ter um relacionamento normal!

           _E porque você tem tanto que ter este tal relacionamento normal? Aceita a porra do puto dentro de você, relaxa e goza.

           _Eu não aguento Jorge, essa é a verdade, a droga mais mortal que assola meu circo dos vícios é minha própria filosofia de vida e isso é um elemento muito difícil de neutralizar. Eu quis os dois mortos, eu quis monogamia e filhinhos, quis a vida careta e babaca que lutei todos os anos da minha vida para não ter e agora estou muito assustado com a maneira que esta vem se desenrolando.

           _Ai Matheus, a Sara, a Morgana e agora a tal da Carolina, o problema deve estar mesmo em você.

           _Está Jorge, eu sei que está, só não consigo mudar.

           _Você não vai mudar do dia pra noite, ninguém muda. Eu fiquei três anos internado, odiando cada dia da internação e ao mesmo tempo sabendo que se não estivesse lá, se estivesse na rua, ia dar um jeito qualquer de ficar perto da morte nem que fosse para me tirar do tédio. O problema básico era que qualquer coisa que não fosse estar alcoolizado dentro de um carro a cento e vinte por hora ou doido do máximo de entorpecentes possível numa festa cheia de gente promíscua e duvidosa  era extremamente tedioso, como por exemplo trabalhar ou ir pagar contas no caminho da padaria.

          _E quando foi o “click”?

          _Como assim o “click”?

          _Quando descobriu isso?

          _Quando fazer orgias drogado e tentar me matar em alta velocidade ficou igualmente tedioso.

         _Claro! Ficar sóbrio às vezes é a maior das ondas.

         _E é Matheus! É sim.

          _Talvez, o lance é que me pus num momento da vida que realmente não previ. Como se acordado de um sonho e descoberto que está tarde demais para começar qualquer coisa entende? Tudo o que eu gostaria de começar a construir me dá uma preguiça monstra, como se a força necessária para isto só existisse uma vez em nossas vidas e eu a tivesse usado toda em desperdício.

                                                                            *

              Era dia de ensaio e como sempre Felipe ligava para Matheus e para Guilherme confirmando, mas após a briga de ontem o telefone de Matheus estava desligado e o baixista achou melhor ligar para o baterista avisando que não ia ter ensaio

            _Fala Felipe.

            _Ei Gui, por acaso você não teria notícias do Matheus, teria?

            Guilherme engole seco, era o segundo dia consecutivo que passava com Morgana, ele podia vê-la preparando um lanche em sua cozinha neste exato momento.

            _Porque eu teria? Você é que mora com ele.

            _A gente teve uma discussão ontem a tarde e desde então o cara não atende o

telefone, também não dormiu em casa.

            _Isso quer dizer que não tem ensaio hoje?

            _Acho que não.

            _De repente é bom ter um domingo livre para variar.

            _Estou preocupado com ele Gui.

            _Relaxa, ele deve ter chapado na casa de alguma peguete, são duas da tarde ainda, lá pelas quatro ele vai acordar na maior ressaca e ligar pedindo desculpas.

            _Não sei não, tivemos uma divergência meio séria.

            _Qual divergência?

            _Ah Gui, ele estava meio de rolo com essa menina e aí a gente veio aqui pra casa tomamos um monte de “bala” e você sabe como essas coisas desenrolam.

            _Ele acordou com ressaca moral por ter dividido o pão?

            _Exatamente.

            _Ah Felipe, vocês também não aprendem! Quando que isso deu certo na vida de vocês dois? – Diz Guilherme lembrando dos atritos todos que os amigos já haviam tido neste mesmo tipo de situação.

            _Enfim, também não estou orgulhoso, se souber de algo me liga.

            _Pode deixar…

            Guilherme estava quase desligando quando Morgana gritou de lá de dentro.

            _Guilherme, onde diabos você guarda o sal nessa zona que você chama de cozinha?

            _Tem alguém aí contigo?

            _Er… tem sim, preciso desligar

            _Eu conheço essa voz, parece muito com a da…

            Guilherme havia desligado, Felipe porém não parecia ter muitas dúvidas em relação a identidade da companhia do amigo.

            _Tá tudo fudido! – Diz alto enquanto procura por cigarros na gaveta e acaba achando alguns papéis do trabalho ao lado do maço.

            Ele passa um minuto contemplando as folhas enquanto fuma, depois, tomado por uma nova energia Felipe entra no computador e começa a escrever qualquer coisa num e-mail…

…em alemão.

                                                            *

 

 

           “Só um belo dia

            Pois se jura, se esconjura

            Se ama e se tortura

            Se tritura, se atura e se cura

           A dor

           Na orgia”

 

            Cantava Carolina junto a Chico aos prantos em seu quarto, talvez na mesma dor de Matheus de simplesmente não conseguir fazer nada direito em sua vida amorosa. Descia o olhar pelo próprio braço; do arranhão a beira da tatuagem no bíceps, feito pelas unhas de Matheus enquanto Felipe a segurava pelas coxas até o copo de vodka com gelo que acabara de se servir. Desligara o telefone, a bossa e a fossa seriam só dela pelo tempo que durasse.

           “Que merda Carolina, o pior sentimento ruim é aquele onde não há de fato alguma culpa, só resta a porra esmagadora de um peso sem sentido. Maldito experimentalismo! Agora não sei se tenho raiva do Matheus por promover algo que não deu conta, raiva de mim por ter topado algo que obviamente daria errado ou só pena de mim mesma por sentir culpa cristã a esta altura do campeonato.”

           Carolina tenta limpar as lágrimas e disca para Matheus mas em breve descobre que seu telefone está desligado.

           “Ao menos sei que o problema não é só comigo, o filho da mãe tá tão transtornado que deve ter sumido do mundo! Eu tinha que resolver isso dentro de mim, decidir o que eu sinto e dar nomes a estes sentimentos. Amo tanto que não sei se sou capaz de amar alguém. Amor sem vetor que nunca é por mim mesma também, isso não é amor – interrompe o pensamento olhando fixamente para o copo e o vira numa golada só – é só algum tipo novo de vício!” – Conclui.

                                                                        *

            Fábio se apoia na divisória do cubículo de Thiago na empresa e o observa trabalhando, este absorto em seus afazeres nem percebe o assistente do patrão o olhando. O assistente decide se fazer notado iniciando a conversa.

            _Oi Thiago.

            Thiago dá um pulo na cadeira de susto.

            _Oi Fábio, tudo bem? – Diz um pouco desconcertado.

            _Vou fingir que não vi você jogando computador no trabalho e te parabenizar pela divulgação das bandas.

            _Obrigado.

            _Achei legal, escolheu bem as canções de cada um e fiquei pessoalmente satisfeito em ver a banda da Carolina em terceiro lugar na escolha da audiência.

            _Legal, eu acho o som dela muito bom também.

            _É, eu também… – Fábio faz uma pausa – Eles estão bem adiantados no material pelo que pude ver, tem clipe, vídeo, link para blog, entrevista na TV, cd à venda, bem bacana.

            _Eu fiz questão de colocar o máximo de informação disponível sobre as bandas em nosso site. – Diz Thiago tentando mostrar serviço.

            _É mesmo?

            _Mesmo, até recebi um e-mail desta banda aqui agradecendo as informações que juntei sobre eles, coisas que nem estavam no release que mandaram!

            O rosto de Fábio não parecia muito contente.

            _Engraçado Thiago, uma das bandas que eu mais gosto que está neste festival, tem dez anos de carreira, mandou um release completo com vídeos, fotos, clipping, os caras já lançaram dois discos independentes, tocaram nas rádios e tudo o que vejo em nosso site é uma faixa demo do primeiro cd. Não sei se você conhece a banda, chama-se “Pixel” e tem um “amigo” nosso no vocal, o Matheus.

            Thiago foi pego de calças curtas, não imaginou que Fábio estava tão ligado em seu trabalho visto a quantidade de tarefas burocráticas as quais Marcus o havia designado. Engasgou uma ou duas vezes.

            _Er… Devo ter me distraído.

            _Distraido Thiago?! Corrigir sua “distração” não vai ajudar os caras que deveriam estar entre os três primeiros em votação já que são a melhor banda da categoria que existe na cidade. Você colocou a banda do Matheus entre os últimos por motivos pessoais e isso não vai passar batido!

            _O que é isso Fábio?! Você está insinuando que…

            _Não estou insinuando nada Thiago, me faz o favor de colocar os dados todos que faltam da Pixel no site, se houver justiça divina nesse mundo eles não precisarão da semana de votação que passou para estar entre os primeiros em pouco tempo. Fui claro?

            _Sim Fábio, calma.

            _Calma… – Repete o assistente enquanto se vira para o corredor.

            Fábio sai nervoso, sabia também que não podia contar com o apoio da chefia neste caso, se Marcus soubesse da tramóia de Thiago era capaz de promovê-lo. Depois pensou em algo que pudesse realmente fazer e digitou o número de Matheus no telefone, teoricamente ele não deveria se envolver assim com uma banda participante mas visto a conspiração contra a Pixel Fábio achou que seria o mais correto. Logo descobriu que Matheus estava inacessível.

            “Droga Matheus! Péssima hora para desligar o telefone!” – Pensou Fábio consigo antes de mandar um e-mail para Matheus contando o ocorrido.

            “Quando o Matheus descobrir o que está acontecendo esse moleque vai ter o que merece.”

                                                            *

               _Quer dizer que aquela piriguete já meteu os pés pelas mãos?! Foi até rápido.

               _Pô Morgana, você não vai ficar contando essas coisas por aí. Estou dizendo pela nossa intimidade.

              _Que intimidade Guilherme, ficou doido? Só porque a gente trepa mais do que antes não quer dizer que laços tenham se desenvolvido.

              _Devia ter ficado quieto.

              _Devia mesmo. Relaxa, não tenho nada a ver com isso, quero distância dessas tretas de Matheus e Carolina, mas é engraçado.

              _O que tem de engraçado em ver seus amigos se dando mal?

              _Seus amigos. É definitivamente engraçado saber que a bunda-molice do Matheus continua crescendo em progressão geométrica! Passa a minha calcinha que eu tenho que ir embora.

              _Vai embora já?

              _Claro garoto, tenho casa sabia? Anda, passa logo minhas coisas.

              O sol das quatro da tarde ardia mesmo com o vento frio de inverno, nada páreo para o imenso óculos hype de Morgana que acendia um cigarro na saída da casa de Guilherme enquanto se ria por dentro dando o play em “These Boots Were Made For Walking” com Nancy Sinatra em seu celular. Na curva em direção ao ponto de táxi não se aguentou.

             _Alô Tina? Menina, você não imagina o bafón!

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Blognovela Capítulo 10 – Um Tom Mais Branco de Pálido

O Hammond de Matthew Fisher tocava suas notas mais famosas num programa de rádio. Mesmo sem nunca ter entendido direito o que “we skipped the light fandango” queria dizer, Morgana ensaiava algumas lágrimas enquanto tentava se distrair na internet, em vão.

Ela tenta lembrar o que Matheus havia dito sobre a canção e sua cabeça logo se enche de momentos e imagens que ela prefere ignorar enquanto desliga o som e olha para o armário.

“Parece o momento perfeito para estrear aquele vestidinho novo!” – Pensa enquanto o relógio marca onze e meia da noite.

                                                                        *

Neste mesmo horário, já bêbado, Matheus começa a puxar o bpm da pista do Sniper para cima. Era exato o momento em que as pessoas começavam a chegar para a balada de sexta-feira.

“Bando de amadores, qual é a idade desse pessoal, dezenove, vinte? Preciso arrumar um emprego de verdade.” – Pensa Matheus

Do meio do pequeno aglomerado de pessoas que ia se formando na pista, eis que surge Felipe com um drink fluorescente na luz negra do club, fazendo charmosos passinhos e sorrindo para as meninas.

_Felipe?! Mas a que devo a honra de tão agradável e oportuna presença? – Diz Matheus abrindo enormes sorriso e braços para receber o amigo.

_Você não faz idéia do meu dia hoje. Ri o amigo num tom irônico.

_Energético?

_Com vodka, quer um gole?

_Quero sim, aliás, vou pedir um para mim também. Fala do seu dia que eu te conto o meu depois.

_Ih, o teu também foi tenso?

_Fala você primeiro, espera aí que eu tenho que fazer uma “passagem” aqui.

Matheus foca a atenção aos equipamentos e coloca os fones, Felipe aproveita para dar uma olhada nas garotas que dançam enquanto os graves aumentam e o arranjo muda fazendo sua expedição ocular parecer prontamente mais interessante.

Ele volta o rosto à Matheus.

_Oba! Estou vendo que você está nervoso hoje!

_Mas fala aí, o que rolou?

_Fui convidado para trabalhar na Alemanha.

_O quê, sério?

_Sério!

_Que bom, eu acho… E a banda?

_Relaxa, eu vou recusar.

Matheus se espanta mais ainda.

_Mas Felipe, calma aí, a gente pode chamar alguém para tocar no seu lugar e…

_Não estou ficando no Brasil por causa da banda Matheus.

_O que houve? O dinheiro não é bom?

_O dinheiro é ótimo, o problema é que eu fiquei quatro horas e uma conta de restaurante de trezentos reais discutindo meu futuro com a Isabela.

O amigo escuta boquiaberto, recusar esse trabalho era bem típico de sua natureza, jamais esperou que Felipe fizesse algo do tipo, pelo contrário, em suas expectativas sempre desenhou claramente o adeus do amigo, o garoto dos olhos dos pais, deixando a todos orgulhosos.

_Deu em alguma coisa?

_Brasil e liberdade dois, Alemanha e Isabela zero!

_Quer outra vodka?

_Claro!

                                                                       *

O celular toca, Carolina dentro de um táxi deixa tocar três vezes antes de atender.

“É a Morgana querendo encontrar, o que eu vou falar com essa garota?”

_Ei amiga! – Atende Carolina.

Morgana do outro lado responde:

_Qual é Carolita, vai sair hoje?

_Estou indo para o Sniper.

_Ver o gatinho do chupão?

_É… – Diz carolina um pouco sem graça.

_O Sniper tá fora de questão, não tô a fim de encontrar o povo de lá hoje. – Diz Morgana ao lembrar que o DJ residente do dia era Matheus.

_Ahn, você está aonde? Quero te encontrar.

_Num barzinho do bairro fazendo um esquenta com uns amigos, eles estão querendo ir para a região ver qual boate está melhor.

_Você vem para esses lados?

_Provável.

_Me liga quando chegar, a gente se encontra na pracinha.

_Beleza gata, a gente se vê, beijo!

_Beijo!

Carolina desliga com um olhar apreensivo, ela não ia escapar de uma conversa franca com a amiga.

Em seguida é o telefone de Morgana que toca, ela olha na tela e percebe que é Marcus, mesmo sem estar com muita paciência para sair acompanhada ela atende com uma desculpa qualquer já armada na cabeça caso tivesse que despistar.

_Fala Marquito!

_E aí delícia, já na rua?

_De saída na verdade, estou com problemas femininos e decidi não durar muito. O que você me conta de novo?

Ela dá um riso de canto vangloriando-se em silêncio da sagacidade de sua resposta.

_Nada demais… – ele faz uma pausa – …pensando bem, sabe quais amigos nossos se tornaram um casal recentemente?

Morgana ri e fica entusiasmada, nunca foi de deixar passar uma boa fofoca ainda mais envolvendo dois de seus amigos.

_Não menino, me conta!

_Carolina e Matheus.

Ao contrário do que imaginou a notícia foi recebida como uma colher de sopa ruim fervendo goela abaixo, ela fica um tempo em silêncio tentando administrar a informação. Marcus obviamente percebe o estado de choque de Morgana e sorri sem fazer barulho enquanto manobra o carro em sua garagem, notando que a amiga ia demorar até responder diz;

_Achei que ia gostar de saber, na verdade pensei até que você já sabia sendo tão amiga da Carolina e tudo.

_Quem te contou isso? – Pergunta Morgana não mais em tom de bons amigos.

_Ninguém, o Matheus passou lá no meu bar para vê-la, acho que ele não sabia que eu era o dono do estabelecimento, tivemos um pequeno atrito,  nada grave. A Carolina não te contou nada? – Pergunta ele tentando disfarçar o cinismo.

_Ela me contou que estava vendo alguém, mas não falou quem era.

_Imagino o porquê.

_Pára com isso Marcus, a Carolina nunca conheceu o Matheus, é bem provável que ela nem saiba que ele é meu ex.

_Enfim, estou te contando.

_Muito obrigada, agora dá licença que eu preciso trocar meu modess!

 _Espera aí, você não quer…

Morgana já havia apertado o botãozinho vermelho de seu aparelho batendo o telefone na cara de Marcus. Seu ar pensativo é interrompido pelo amigo ao lado que lhe estica a conta para que pudesse calcular sua parte.

                                                                           *

Há algum tempo Tiago havia sido contratado para ocupar a vaga de mídia social do evento que Marcus e Doña Adalina estavam realizando e hoje mais cedo todos tinham saído para um happy-hour entre colegas de trabalho. Marcus, muito bêbado, se retirara para casa enquanto Fábio e Tiago encaminharam-se a um bar que fechasse mais tarde.

_Você falou que postou o perfil das bandas para voto popular hoje? – Pergunta Fábio.

_Sim, dei uma trabalhada na divulgação em canais do Facebook também.

_Ótimo, como está a venda de ingressos online?

_Indo bem, é provável que todos os dias estejam esgotados até terça que vem.

_Muito bom! Teremos lotação máxima antes da decisão das finais.

_Ué, não são todas aquelas bandas que vão participar?

_Pô Tiago, você não leu o regulamento? As bandas na internet são os pré selecionados, só toca durante o festival aquelas que tiverem mais votos no júri popular.

_Quer dizer que o pessoal está comprando ingresso sem nem saber quem vai tocar?

_Claro, o povo compra ingresso para ver as atrações principais que já estão devidamente contratadas e agendadas, ninguém está nem aí para qual banda vai abrir. Por isso é importante o seu trabalho, você que vai dar força postando os vídeos e os podcasts das bandas até lá para que o pessoal conheça os concorrentes e vote no que achar melhor.

Tiago sorri, descobre que tem poder sobre a visibilidade das bandas e isso viria a calhar em tentar aproximar sua relação com Carolina novamente. Fábio sem notar a preciosidade da informação, dá um gole de cerveja e se lembra de um assunto discutido mais cedo.

_Tiago, que papo torto era aquele do Marcus contigo mais cedo?

_Sobre?

_Sei lá, ele falando qualquer coisa de uma tal de Sara.

_Sara é minha irmã, ela faleceu quando eu tinha nove anos.

_Oh, desculpe.

_Não tudo bem, o Marcus conheceu ela e o pessoal que ela andava na época. Ele acha que talvez alguém daquela galera tenha a ver com a morte dela.

_Por acaso o Matheus era dessa turma?

_Você conhece o Matheus? – pergunta Tiago.

Percebendo a curiosidade do garoto com o amigo, Fábio prefere não fomentar a discussão.

_Ahn, conheço mais ou menos. Estou dizendo isso só para você não dar muita corda nas coisas que o Marcus fala, ainda mais bêbado.

_Relaxa, eu percebi que ele não se dá muito bem com aquele pessoal.

_Ele está recalcado porque o Matheus está de rolo com a gatinha do bar dele, uma que ele queria pegar.

Tiago então liga os pontos e tenta disfarçar sua surpresa.

_Você sabe que quem me indicou para o Marcus foi seu sócio no bar, o Lulu, eu costumo ir lá com certa freqüência, essa gatinha seria a Carolina? Você sabe, a bartender…

_Essa aí mesmo. – Responde Fábio distraído com o movimento da fila do banheiro.

_Entendo, ela é mesmo muito bonita. – Comenta Tiago baixando o tom antes do gole, ele agora sabia por que Carolina não atendia mais seus telefonemas.

                                                                          *

_A Isabela quer a gente num apartamento estiloso em alguma praça bonita em Berlim tomando Veuve Clicquot resfriada na janela. – Comenta Felipe já ficando alto.

_Porra, eu também quero, me leva? – Ri Matheus.

_Ah Matheus, pode parecer bom, mas a qual preço? Sou mais uma casinha no litoral sul do Rio de Janeiro tomando uma Heineken do baldinho de gelo.

­_Bom também, vocês tem sonhos bem legais, atualmente eu ando sonhando em pagar o aluguel do mês que vem! – Ri Matheus.

Felipe já ensaia uma dança um pouco etílica e presta atenção no que está tocando.

_Remix de Procol Harum?! – Pergunta surpreso.

_Um alemão chamado Andre Tanneberger lançou isso há uns dois anos, quem está cantando é a Sarah Brightman.

_Sarah Brightman, nossa, só você mesmo para desenterrar uns espíritos malignos desses. – Brinca Felipe

Uma garota que dança mais perto da cabine olha para Matheus e o lança um beijinho como se agradecendo a música.

_Ah Tetê! As vezes penso que era isso o que eu queria, me esbaldar toda noite, sem esse negócio de escritório, gravata, poder estar de ressaca terça de manhã, comer uma ninfetinha dessas aí por dia… – Desabafa Felipe.

_O que é isso Lipe, até parece que você acha essa vida fácil. Realmente não tem escritório nem gravata e de fato se pode acordar de ressaca na terça, mas esqueceu algumas coisas; A gente acorda de ressaca todos os dias, o que não é nem de longe bom, pior, você começa a não conseguir pagar por estas ressacas, não há vínculo empregatício, aposentadoria, comprovação de renda. Sem falar no risco de pegar uma DST, ou você acha que é só porque elas são novinhas é que elas são limpinhas?

Te conheço Felipe, você tem um bom motivo para não viver assim, é um ser humano imbuído de sensatez! Eu por outro lado, quanto mais rezo mais assombração me aparece.

_Pode ser. – Responde o amigo ainda olhando a dança da garota.

_Você só está dodói com essa história toda de Isabela e Alemanha.

_Faz sentido. Falando em mulher, a Carolina ligou lá pra casa hoje, pouco antes de eu vir para cá, disse a ela que você estaria aqui.

_E você me avisa isso agora?

_O que tem? Você tava todo apaixonado, o que houve?

_Eu não te falei do meu dia ainda não é mesmo?

                                                                        *

Carolina toma uma cerveja no boteco ao lado do Sniper enquanto espera Morgana ligar. Olha no cardápio e tem água na boca ao ver os nomes das cachaças mas antes que pudesse pedir uma.

_Oi Carolina.

Ela pode ver no fundo dos olhos da amiga, não havia muito o que dizer.

_Olha Morgana, eu juro que quando eu descobri já era tarde.

_Tarde demais para me contar Carolina? Espero que você tenha descoberto isso hoje.

Carolina olha para baixo enquanto seus olhos enchem d´água, Morgana levanta o rosto da garota com um olhar fuzilante.

_Não chora não! Conta pra mim Carolina, você ta apaixonada?

_Eu… eu não sei Morgs, a gente…

_Morgs é a puta que te pariu garota! “Eu não sei Morgs…” – repete Morgana zombando – mas a porra da sua buceta você sabe muito bem onde coloca não é mesmo?!

Carolina retoma as forças e afasta a mão de Morgana do seu rosto.

_Porra Morgana, também não precisa esculachar!

_Esculacho sim Carolina, te conheço muito bem, sei que você é incapaz de amar alguém e vai fazer gato e sapato do otário do Matheus!

_E o que tem? Ele não é um otário do jeito que você diz? O que tem se eu dou para um otário qualquer que me aparece também? Se enxerga Morgana, não é como se você tivesse sido um exemplo de esposa.

_O que você ta falando? Você não tem a menor idéia do meu relacionamento com o Matheus, tudo o que eu fiz foi…

_Qual relacionamento Morgana? O que vocês viveram não foi um relacionamento. Não vou ficar aqui dando show em porta de boteco não, vou lá ver se eu começo um relacionamento de verdade!

Carolina joga um dinheiro em cima do balcão.

_Tem uma cerveja pra você aí também, a não ser que prefira gastar seu tempo procurando um pau qualquer pra se esfregar!

Dizendo isso ela sai em direção ao Sniper, deixando Morgana num sentimento confuso entre a traição, a possessividade e a auto-crítica.

                                                                        *

Matheus havia terminado seu set e dava lugar ao DJ convidado sentando-se ao lado de Felipe no balcão.

_As coisas mudaram Felipe, hoje somos nós que vamos ao banheiro na madrugada enquanto elas dormem, com “Will You Love Me Tomorrow” na cabeça. Mulher é um animal cruel, as reprimimos por todos estes séculos não foi à toa. Penso que a quantidade de homossexuais do sexo masculino advém de uma incapacidade nossa de lidar com mulheres no comando das situações.

_Ei, fale por si, eu não tenho esse medo todo de mulher não!

_É, pode ser, mas não possui a mesma experiência que eu. – Caçoa Matheus.

_Falou então “womanizer”! Por falar em mulher, não é a sua ali no canto?

Carolina estava do outro lado do balcão de saia curta e bota militar, parecia procurar por Matheus com olhos investigativos voltados a cabine.

_Como dizia Gainsbourg? “…uma beleza delicada com a desesperança de uma figura trágica.” Ela é assim. – Diz Matheus sem disfarçar o sorriso.

_Por um minuto eu vi você falando da Sara. Cuidado meu amigo, muita calma neste impulso destrutivo.

_Você sabe que calma…

_Você não tem nenhuma? É, eu sei… – Conclui Felipe com ar de saco cheio enquanto estica a cartela para o barman – …ou paz alguma. – Completa baixinho.

Matheus fixa o olhar em Carolina e vem andando lento em sua direção, ela por um tempo ainda o procura na multidão até que este se encontra a sua frente a poucos metros de distância dela.

_Uísque com uma pedra de gelo, cabelo elegantemente desarrumado, jaqueta de mangas dobradas e apenas meia camisa para fora da calça, só para mostrar a fivela do cinto imagino eu. Você não tem vergonha de estar sempre fazendo pose? – Pergunta Carolina.

_Nenhuma, e você?

_Ainda está bravo comigo?

_Pela veia estufada e o resto de rímel na bochecha penso que passou as últimas horas discutindo a relação com uma certa amiga.

_Como pode saber uma coisa assim?

_Acredite, conheço melhor que ninguém um olhar de cansaço após uma discussão com Morgana, ela não está aqui está?

_E se estivesse?

_Eu avisaria a segurança para ficar de olhos abertos.

_Ela ainda mexe com você desse jeito?

_Gente de baixo nível assim mexe é com a integridade de todo um estabelecimento, meu amor.

_Meu amor?

_Deu para notar o sarcasmo?

_Deu.

_Não era a minha intenção.

_O sarcasmo ou que eu o notasse?

_Você perdeu o meu set.

_Não vim ver seu set, vim ver você.

                                                                          *

Morgana ainda está no mesmo bar, bebendo sozinha e engolindo o choro com algumas doses de vodka, ela suspira alto e saca o celular.

_Oi. – Diz a voz do outro lado.

_Onde você está?

_Em casa dormindo.

_Posso ir para aí?

_Morgana, eu não sei se isso que a gente está fazendo é muito legal.

_Por favor, tive uma noite estressante, quando você acordar eu prometo que vou estar longe já.

_Não sei…

_Qual é, da última vez foi você que ligou!

_Tá bom, você vem como?

_De táxi, em cinco minutos estou aí.

_Ai Morgana, se o Matheus ficar sabendo disso…

_Eu estou separada Guilherme, se ele ficar sabendo vai ter que entender que não tem nada mais a ver comigo.


Blognovela Capítulo 9 – A Ordem Natural do Caos

Um solo harmonizado cheio de reverb vinha do quarto, a porta estava entreaberta e ao notar a concentração de Matheus nas cordas Felipe preferiu assistir sem interromper.

Matheus corria os dedos pela guitarra em profunda comunhão e sintonia com a música, seus olhos fechados umedeciam às notas mais tristes e num “Bend” um pouco mais sentimental a corda “sol” arrebenta violentamente cortando seu dedo.

_Merda! – exclama o garoto jogando a guitarra em cima da cama e levando o dedo que sangrava à boca.

Felipe então bate na porta que já estava aberta e cantarola.

_ “So please, please, please, let me, let me, let me, let me get what I want. Lord knows it would be the first time…” Ficou maravilhoso desse jeito “bluezado” versão sua? – Pergunta Felipe.

_Os fraseados da melodia sim, mas a versão é do “She & Him”.

_Ah sim, a banda daquela gatinha que é atriz.

_Isso. Como eu vou fazer Lipe? Não tenho grana nem pra fumar, quanto mais comprar cordas.

_Seu violão tem corda?

_Tem, mas não vou colocar elas na guitarra, são muito pesadas.

_Não seu idiota, num momento de desespero o que faz um músico pobre que pega uma cantora gatinha?

O rosto de Matheus parece ser iluminado.

_É isso! Felipe você é um gênio! – Diz Matheus num salto beijando a testa do amigo e lhe apertando as bochechas.

_Eu sei… – Ri o amigo.

*

_Porra Fábio, tem que dar logo um jeito nisso cara, ta tudo andando já e o site é a primeira coisa que a gente tem que colocar no ar para começar a divulgação!

_Eu sei Marcus, relaxa que ainda hoje eu consigo alguém para fazer nossa mídia-social, nem que seja eu mesmo.

_Assim é que se fala, encosta o carro ali, tenho que passar no bar para pegar uma grana.

Eles passam devagar e podem ver Carolina no balcão.

_Olha ali Fábio, já viu o tanto que essa menina do bar é gata?

_Imagino que você já tenha aplicado nela o “teste do sofá” como aplicou à suas antecessoras.

_Nada, essa aí é dura na queda, uma vaga! Entra ali.

Fábio e Marcus passam pelo bar onde são cumprimentados de maneira fria por Carolina que contava o estoque.

Enquanto Marcus sobe para conversar com Luís, Fábio pede um guaraná e o espera no balcão e eis que Matheus adentra ao salão.

_Ué, Fabinho, que fazes por aqui?

_Eu é que te pergunto, esse é o bar do Marcus. – Diz Fábio antes do abraço.

Enquanto os dois se abraçam, Carolina ainda às voltas com a reposição do freezer tenta entender as palavras dentro das vozes que ouvira e segundos depois surge por trás do balcão.

_Matheus?! O que você tá fazendo aqui?

_Vim te ver… Lindona! – Diz o garoto com o maior sorriso do mundo no rosto.

Fábio já acostumado com o carisma do amigo conclui tudo muito rápido.

_Vou procurar um cigarro na padaria ali do lado e já volto. – Diz ele risonho.

Matheus sorri quase infantil, contemplava as curvas das feições de Carolina sem ao menos notar o pânico no fundo de seu olhar.

Carolina tentava compreender como Matheus ali estava, como ele conhecia Fábio, sem aperceber-se da ternura e felicidade que lhe invadia em apenas estar em sua companhia.

_Como você veio parar aqui?! – Pergunta Carolina chocada.

_Você deixou escapar o nome. Não é como o Sir Louis Pub fosse um local totalmente desconhecido, para começar ele é propriedade de um velho amigo.

_O Lulu?

_Não, o Marcus.

_Você é amigo do Marcus? – Pergunta ela com um certo nojinho em escape.

_Nos conhecemos, de outros festivais… Antes dele produzir os próprios já que não ganhava nenhum. – Ri Matheus deixando escorrer o veneno.

*

_Assim não dá Luís, isso não é nada bom!

_Ah Marcus, você tem que entender, esse mês ano passado também não foi nada bom.

_Ano passado foi ruim, mas não desse jeito.

Marcus levanta da cadeira e pigarreia enquanto olha o balanço das finanças do bar.

_Isso é inadmissível, o que vou lucrar aqui esse mês é o mesmo que o garçom ganha.

_O mesmo que um garçom ganha num mês muito bom Marcus, este mês eles não ganharam quase nada.

_Quase nada?! Deu um pouco mais de um salário mínimo, dá muito bem para pagar as contas lá de não-sei-aonde que esse povo mora!

_Se liga Marcus, a Carol por exemplo mora no mesmo bairro que você!

_Então ela devia ter aproveitado e estudado na mesma escola, aplicado a mesma faculdade, tirado o mesmo diploma e não esfriar os peitos num balcão para ter uma banda de rock. Quer saber Luís, se neste mês estes números não melhorarem de maneira expressiva estou entregando o ponto, esse lugar me dá muito mais trabalho que dinheiro e sinceramente tenho coisas mais importantes pra me preocupar.

_Calma aí Marcus, minha vida ta aqui dentro!

_A minha também Luís, mas meu intelecto me protegeu de colocá-la toda no sonho beberrão do meu pai. – dizendo isso Marcus passa pela porta deixando Luís com o computador, a papelada…

…e o rancor.

_É, você sabe mesmo como leiloar a memória do teu velho! Playboy escroto! – xinga ele depois da saída do sócio.

*

Abatido pelo trabalho, ainda com a gravata torta, Felipe toma um uísque e fuma um cigarro para relaxar na sala enquanto fala ao telefone com Isabela.

_Felipe, meu amor, era tudo o que você estava esperando!

_Não sei Bela, tudo muito rápido.

_Mas você vai ligar não vai?

_Tenho que ligar nem que for para dizer: “não”.

_Você ta louco Lipe?! Olha, eu to saindo do trabalho, vou passar em casa para tomar um banho, a gente podia ir naquele bistrozinho jantar hein, o que acha?

_Tem lasanha congelada em casa, não sei se estou muito a fim de sair.

_Então eu passo aí depois de casa e levo alguma coisa para a gente jantar direito, aí a gente conversa sobre isso com mais calma ta bom?

_Tá bom.

_Te amo querido, daqui há pouco passo aí.

_Ok. Beijinho.

_Beijo, tchau.

_Tchau.

Felipe desliga o telefone e sopra a fumaça do cigarro.

“Agora está toda manhosa, um doce. Certas pessoas nunca mudam, nunca entendem. Aquele alemão maluco, onde será que ele vai me enfiar?” – pensa Felipe enquanto lembra da conversa que teve no almoço de trabalho;

(conversa traduzida do alemão)

“_Herr Phillip, estou bastante impressionado com seu plano de ações para introduzir nossos serviços no mercado brasileiro, mais ainda com sua desenvoltura espetacular, seu alemão é impecável.

_Obrigado Sr. Hans.

_Admiro muito jovens preparados como o Sr. Para dizer a verdade, estamos precisando de alguém assim nos escritórios de Munique. O Sr. tem domínio da língua inglesa?

_Sim Sr.,também tenho um bom conhecimento do francês comercial.

_Esplêndido, este é meu cartão, vou anotar aqui o celular brasileiro do meu assistente. Posso falar com seus superiores se preferir. De fato o cargo vago em Munique está sobrecarregando alguns de nossos executivos e tenho certa urgência em preenchê-lo. Ligue o quanto antes para discutirmos essa idéia, gostaria muito que fosse você o jovem à ocupar esta cadeira.”

*

_Pensa só, vai ser ótimo e ainda vai nos gerar uma renda extra!

_Calma Matheus, tem muita coisa pra ver, tenho que falar com o Lulu, a gente teria que fechar um repertório, ensaiar, com esse negócio do festival rolando não sei se vai dar tempo.

_Você vai participar?

_Claro que vou, as premiações são bem generosas.

_Pensa na idéia com carinho Carol, basta colocar no papel músicas que você achar interessante para violão e voz. Dê preferência a algo que você tenha experiênciaem cantar. Eutiro as músicas rapidinho, a gente vai tocar sentado, rola de ler as letras enquanto canta, é bem simples.

_Eu sei muito bem fazer voz e violãoem bar Matheus, mesmo assim, tudo bem feito demanda tempo, amorzinho.

Carolina olha ternamente nos olhos de Matheus que mesmo um pouco ansioso com a resposta da jovem para sua idéia, não deixou de ser cativado pelo “amorzinho”.

Esta foi justo a cena que Marcus presenciava recém-saído do escritório de seu bar.

A porta se abre e Marcus desce as escadas dando de cara com Matheus.

_Matheus Farina Leme! Há quanto tempo! – diz Marcus sarcástico abrindo os braços como se fosse abraçá-lo.

Matheus quebra a postura do gesto esticando friamente a mão direita

_Oi Marcus. – responde seco.

Marcus por sua vez dá uma risadinha e pegando no ombro do “colega” dirige a palavra à Carol.

_…ou Matheus “farinha” como era conhecido no colégio – ri dando-lhe leves tapinhas na asa – Não é mesmo Matheus? Rá, rá, tempos loucos aqueles!

_Minha turma te chamava de MarCuzão e nem assim fico por aí contando para suas namoradas seus apelidinhos escrotos de adolescência.

Carolina arregala os olhos sem querer, notando a situação constrangedora Marcus continua falando de olhar fixo em Carolina

_Olha só! O que eu perdi enquanto ganhava dinheiro por aí? Quer dizer que não satisfeito em roubar a menina dos meus sonhos na faculdade ainda namora minha bartender mais bonita? O que houve com o casamento, problemas no paraíso?

_Meninos, vocês parecem se conhecer bem até demais, vou deixá-los; um entretendo ao outro enquanto volto ao trabalho e… só para esclarecer, o Matheus não é meu namorado.

_Ainda! – Retruca Matheus com um sorriso safado – E você como bom crocodilo do pântano pode engolir esse veneno que eu tenho certeza que Dona Adalina já deve ter ido correndo te contar as novidades do meu “paraíso”.

_Sim, é verdade. Doña Adalina comentou qualquer coisa sobre o assunto, o que me lembra. Você conhece a Morgana não é mesmo Carol? A filha da minha colega de projeto, Doña Adalina? Tenho certeza que ela também havia comentado algo sobre a amizade de vocês duas. Não precisa ir correndo mostrar serviço para o patrão mocinha, eu já estava de saída. Adeus Sr. Marcus Farina Leme, é sempre um prazer rever tão velho e caro amigo… à propósito, seu pai ainda te deixa usar o “Leme”?

Matheus não se conteve, os anos de “guerra fria” entre Marcus e ele haviam acabado de precipitar, não fosse Fábio que entrava no exato momento no salão, seu braço teria acertado em cheio o nariz de Marcus.

_Opa, opa! O que é isso?! – Diz Fábio segurando Matheus enquanto esse vermelho de fúria espumava pela boca.

_Me larga Fábio, vou fazer esse filho da puta engolir todas as palavras que já disse na vida, e vai ser hoje!

_Larga ele Fábio, um processo por agressão é tudo o que um pé-rapado, deserdado que vive de favor com o amiguinho de infância precisa para coroar sua carreira de perdedor.

_O quê?! Vem aqui seu almofadinha sem talento do caralho!

_Calma Marheus! Fica calmo, ele tem razão! Ninguém aqui é mais moleque para partir para agressão. – Grita Carolina

_As coisas tem conseqüências no mundo adulto “Farinha”. – Diz Marcus já do lado de fora.

_Deixa ele ir Matheus, não vale à pena. – Diz Fábio em seu ouvido.

_Tá bom, tá bom, ele já foi embora, pode me largar. Como você que é um cara tão bacana trabalha para esse “tengú” do último inferno?

_Esse o quê? – pergunta Fábio.

_Esse imbecil Fábio! O único de sua espécie, o grandioso MarCuzão!

_Ele paga as nossas contas Matheus. Vai pra casa, você precisa se acalmar. – Diz Carolina fria.

_Ah Carol, sem essa do “estou puta porque você tentou agredir meu patrão”.

_Como assim Matheus? É óbvio que estou puta com isso, você queria fazer um projeto no bar do cara e acaba tentando estourar o nariz dele no meio do trabalho? Perdeu a noção?!

_Eu vou é trabalhar, num trabalho bem longe de psicopatas engravatados como o Marcus, depois eu vou descansar.

_Isso, vai mesmo! – Diz Carolina ofendida.

Matheus olha bem em seus olhos antes de sair.

_Depois eu te ligo e não precisa contar para a sua “amiguinha” o que aconteceu aqui hoje, ela vai ficar sabendo de qualquer jeito mesmo.

_Que amiguinha garoto, do que você está falando?

_Da minha ex-mulher Carol, Morgana! Escuto bem, sou músico, sabia?

Matheus sai esbaforido sem nem esperar a resposta de Carol, esta olha para o chão sentindo o que aquela história ainda podia render.

_Alguém pode me explicar porquê eu perdi minha carona? – Diz Fábio desiludido vendo o carro de Marcus se afastar.


Matheus e Felipe sobre mulheres e cervejas

O Stijl do White Stripes rodava no som da sala, na terceira faixa – “Sister, do you know my name?” – Felipe acabava de apagar um baseado quando Matheus com um olhar tranqüilo perdido entre a parede e a janela começou a devanear.

_Existe uma idade muito bonita na vida de uma mulher que é tão intensa e poderosa que acho que desperta um lado masculino destrutivo.

Felipe ri.

_É mesmo Matheus? Qual é essa idade?

_Entre os vinte e os vinte e quatro.

_Que específico! – Ri novamente Felipe – Você pode ter razão, mulheres dessa idade são como uma Stella Artois à sete graus num píer de frente pro mar.

_Você gosta mesmo de uma Patricinha, não é Felipe? As mulheres dessa faixa etária as quais me referia eram mais para uma Heineken; Amarga e forte na medida certa, com sabor equilibrado e decidido e absurdamente “style”!

_Existem essas sim, mas estas estão um pouco acima na cadeia. Eu diria que mulheres Heineken estão mais entre vinte cinco e vinte e nove

_Tem razão, a menina Stella então se tornaria a mulher Heineken.

_ComCerveja! – gargalha Felipe.

_E depois dos trinta?

_Aí depende.

_Depende do quê? – Pergunta Matheus.

_Se ela for mãe ela provavelmente vai ter dado uma amadurecida.

_Uma cerveja madura, materna, hum… Antactica Original?

_Até uma Bohemia!

Os dois gargalham.

_Acho que Bohemia é quando os filhos estiverem maiores e ela já estiver solteira de novo, aos quarenta, por aí. – Reflete Matheus

_Se ela continuar uma gata até aí pode se tornar uma Miller ou se não tiver filhos uma Skol Beats. – Devaneia Felipe.

_Mas sempre, em qualquer idade, vai haver a mulher Kaiser.

_Como assim Matheus?

_Você não toma, não curte, mas se for a única que tem na festa você acaba pegando uma!

_Nossa Matheus!


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